quarta-feira, novembro 15, 2023

Como se Implementa Saúde Baseada em Valor? (Os 12 trabalhos)

 

Ano 18, Número 137, Novembro de 2023

André Medici

Introdução

Na mitologia grega, Hércules, filho de Zeus (rei dos deuses) e de Alcmena (mortal), conhecido por sua força extraordinária e por suas aventuras, foi induzido por Hera, esposa de Zeus, a matar sua esposa e filhos, recebendo do rei Euristeu de Tirinto, como punição para esses pecados, a obrigação de realizar 12 trabalhos aparentemente impossíveis[1]. Ao realizar estes trabalhos, Hércules demonstrou sua coragem, força e habilidade, e ganhou, como recompensa de Zeus, a imortalidade, sendo aceito para conviver entre os deuses no Olimpo.

Na história real, o século XXI traz embutida a promessa de saúde universal e de qualidade para a população mundial, mas os sistemas de saúde não são capazes de entregá-la, seja pelos seus altos custos, seja pela inequidade, pela ineficiência e pelo anacronismo de como se organizam. Se os sistemas de saúde fossem Hércules, e as promessas de saúde universal e de qualidade fossem o desejo de Zeus, as punições para os pecados dos sistemas de saúde enunciados acima estariam associadas à implantação de modelos de saúde baseados em valor (value-based health care ou VBHC) – os únicos que, entre as propostas atuais, seriam capazes de realizar o desejo de Zeus, ou seja, a promessa de saúde universal e de qualidade.

Mas como nada é de graça, o alcance desta promessa, ou seja, a implantação dos modelos de VBHC, exigirá dos sistemas de saúde pelo menos 12 trabalhos, enunciados a seguir.

Trabalho # 1:  Fazer com que o Cuidado seja Centrado no Paciente:

As necessidades e preferências do paciente são fundamentais para o processo de cuidado.  Os prestadores de serviços de saúde devem se esforçar para compreender e atender às metas e expectativas individuais dos pacientes. Nesse sentido a tomada de decisão compartilhada entre pacientes e prestadores é fundamental.

Mas como se implanta o cuidado centrado no paciente? Antes de tudo, se trata de um processo que envolve mudanças na cultura, nas práticas e nas políticas de cuidados de saúde para colocar o paciente no centro do sistema. As principais diretrizes gerais para implementar o cuidado centrado no paciente seriam:

Promover uma cultura de atenção à saúde centrada no paciente: Isto requer que os líderes de instituições de saúde devem demonstrar um compromisso claro com o cuidado centrado no paciente. Envolve ainda o treinamento das equipes de saúde em habilidades de comunicação, empatia e respeito pelos valores e preferências dos pacientes.

Compreender as necessidades e preferências dos pacientes: Para tal se deve promover a coleta ativa de informações sobre as preferências, valores e necessidades dos pacientes e garantir que as informações sobre o paciente e suas preferências sejam compartilhadas efetivamente entre todos e, especialmente, entre os membros da equipe de saúde.

Melhorar a comunicação em todas as frentes: Encorajar uma comunicação aberta e transparente entre pacientes, famílias e profissionais de saúde, bem como desenvolver habilidades de escuta ativa para entender as preocupações e expectativas dos pacientes.

Envolver os pacientes na tomada de decisões: Para tal se deve fornecer informações claras e compreensíveis para os pacientes a fim de que possam tomar decisões informadas sobre suas escolhas em saúde, bem como incentivá-los a participarem ativamente nas decisões relacionadas à sua saúde. A época da assimetria de informação e de reuniões fechadas das equipes médicas deve ficar outdated.

Personalização do cuidado: Deve-se reconhecer a diversidade dos pacientes e personalizar o cuidado de acordo com suas necessidades individuais e desenvolver planos de cuidado em colaboração com os pacientes e suas famílias.

Aprimorar a experiência do paciente: Implementar mecanismos de feedback para avaliar continuamente a experiência do paciente e realizar melhorias com base nesses feedbacks. Além disso, monitorar indicadores de desempenho relacionados à satisfação do paciente e aos resultados do tratamento.

Integrar as novas tecnologias ao atendimento de forma significativa, barata e efetiva: A tecnologia também deve ser centrada no paciente, ou seja, utilizada para melhorar o acesso às informações, envolver os pacientes e facilitar a comunicação entre os membros da equipe de saúde.

Promover o trabalho colaborativo e integrado em equipes de saúde: Fomentar uma abordagem colaborativa e interdisciplinar entre diferentes profissionais de saúde para fornecer um cuidado holístico e coordenado.

 

Em resumo, a implementação bem-sucedida do cuidado centrado no paciente requer um comprometimento de longo prazo, a participação de todos os membros da equipe de saúde e a criação de um ambiente que valorize e priorize as necessidades e experiências dos pacientes.

 

Trabalho # 2: Criar uma Cultura de Medição de Resultados

A criação de uma cultura de medição de resultados em saúde envolve o estabelecimento de práticas e valores que priorizam a coleta e análise sistemática de dados para avaliar e melhorar a qualidade do cuidado. Aqui estão algumas etapas que podem ser seguidas para desenvolver essa cultura:

Definir objetivos claros para orientar o que deve ser medido: Estabelecer metas e objetivos específicos para a medição de resultados em saúde. Isso deve incluir a melhoria da segurança do paciente, a satisfação do paciente e a eficácia do tratamento, entre outros.

Engajar Liderança: Obter o apoio e o comprometimento da liderança da instituição de saúde é crucial. Os líderes das instituições devem enunciar seus objetivos e comunicar a importância da medição de resultados, através de indicadores definidos e demonstrar seu compromisso com os resultados destes indicadores através de incentivos adequados e ações concretas.

Educar e treinar a equipe para medir resultados e orientar-se por eles: As instituições de saúde devem fornecer treinamento para profissionais de saúde sobre a importância da medição de resultados, bem como saber como realizar medições precisas e interpretar e utilizar os dados para melhorar os cuidados.

Desenvolver sistemas de coleta de dados associados ao processo de trabalho: O processo de trabalho em saúde passará a produzir dados como quem respira. Deve-se implementar sistemas eficientes para coletar dados de forma consistente e precisa, através da implementação de registros eletrônicos de saúde (Eletronic Health Records ou EHR) e de outros sistemas de informação associados ao levantamento de custos, ao entorno social e a saúde populacional.

Estabelecer um conjunto de indicadores de desempenho hierarquizados: Identificar e implementar indicadores de desempenho relevantes para medir os resultados em saúde. Isso pode incluir indicadores clínicos, de segurança, de satisfação do paciente, e de aspectos financeiros e contábeis, entre outros.

Promover a transparência na divulgação dos resultados: Encorajar a transparência na divulgação dos resultados, envolvendo os veículos relevantes de imprensa e o acesso integral a base de dados relevantes para todos que quiserem acessar as páginas web da instituição. Tornar os resultados acessíveis a profissionais de saúde, pacientes e outras partes interessadas pode motivar melhorias e construir confiança.

Incentivar a melhoria contínua da qualidade: Estabelecer uma cultura de melhoria contínua. Os dados devem ser usados não apenas para avaliação, mas também para identificar oportunidades de aprimoramento e implementar mudanças positivas.

Garantir o envolvimento de todos os profissionais de saúde sobre a produção de dados relacionadas as partes relevantes de seu trabalho: Incentivar a participação ativa de profissionais de saúde na coleta e análise de dados e promover um senso de responsabilidade e identificação deles com os resultados alcançados.

Reconhecer e celebrar conquistas reveladas pelos resultados: Reconhecer e celebrar os sucessos alcançados em termos de melhoria dos resultados em saúde. Isso pode motivar a equipe e reforçar a importância do esforço coletivo.

Promover a avaliação regular do processo da estratégia de medição de resultados: Realizar avaliações regulares da eficácia dos processos de medição de resultados, adaptando e ajustando os métodos conforme necessário para garantir a eficiência e relevância contínuas da entrega de serviços ao longo do tempo.

Ao implementar essas estratégias, as organizações de saúde podem criar uma cultura de medição de resultados que não apenas avalie o desempenho, mas também promova a qualidade, a segurança e a eficácia dos cuidados prestados.

Trabalho # 3 – Redesenho dos Processos Associados aos Cuidados de Saúde

Redesenhar os processos de cuidados de saúde dentro do VBHC envolve uma abordagem centrada no paciente, melhoria contínua e medição de resultados. Aqui estão algumas etapas para o redesenho de processos no âmbito do VBHC:

Identificação dos pacientes-alvo: Definir grupos específicos de pacientes ou condições de saúde para os quais se deseja otimizar o valor. Isso permite uma abordagem mais direcionada e eficaz.

Mapeamento do fluxo de valor atual: Compreender o fluxo atual dos processos de cuidados de saúde. Isso inclui a identificação de atividades, recursos envolvidos e pontos de decisão ao longo do caminho.

Engajamento multidisciplinar: Envolver uma equipe multidisciplinar que inclua profissionais de saúde, administradores, contadores, especialistas em qualidade e, quando possível, pacientes, de forma a garantir uma perspectiva holística para a análise e redesenho dos processos.

Identificar de atividades de valor e de desperdício: Identificar as atividades que agregam valor aos pacientes e eliminar ou reduzir aquelas que são consideradas desperdício no processo. O VBHC visa otimizar o valor, eliminando atividades que não contribuem significativamente para os resultados do paciente.

Estabelecer métricas e indicadores de desempenho: Definir métricas claras e indicadores de desempenho que estejam alinhados com os resultados que importam para os pacientes. Isso pode incluir indicadores clínicos, satisfação do paciente, desfechos funcionais, entre outros.

Implementar de práticas baseadas em evidências: Integrar práticas baseadas em evidências nos processos. Certificar-se de que os cuidados prestados estejam em conformidade com as melhores práticas e evidências científicas disponíveis.

Utilizar de Tecnologia da Informação: Integre sistemas de TI para facilitar a coleta e análise de dados, garantindo uma tomada de decisões informada e o monitoramento contínuo dos resultados.

Desenvolver de protocolos e diretrizes: Estabelecer protocolos e diretrizes claras que guiem os profissionais de saúde na entrega de cuidados baseados em valor. Isso promove a consistência e a qualidade.

Envolver o paciente: Inclua os pacientes no processo de tomada de decisões e no gerenciamento de suas condições de saúde. Promova a educação do paciente e a autonomia.

Avaliação Contínua e Melhoria dos Processos: Implemente um ciclo de avaliação contínua e melhoria. Use dados para revisar regularmente os processos, identificar oportunidades de melhoria e ajustar as práticas conforme necessário.

Revisão do Modelo de Remuneração: Avalie e, se necessário, ajuste o modelo de remuneração para incentivar práticas de cuidados de saúde de valor, em vez de volume.

Colaboração Interprofissional: Promova a colaboração interprofissional, envolvendo diferentes especialidades e profissionais de saúde no cuidado coordenado do paciente.

 

Ao seguir essas etapas, as organizações de saúde podem redesenhar seus processos de cuidados para se alinharem melhor com os princípios do VBHC, melhorando a eficiência, a qualidade e a experiência do paciente.

Trabalho # 4: Cálculo Apropriado e Transparência nos Custos dos Cuidados de Saúde

A transparência de custos na produção de serviços de saúde é fundamental para promover a prestação de contas, facilitar a tomada de decisões informadas e aumentar, medir a eficiência do sistema de saúde, vinculando os custos aos resultados. Os processos de saúde baseada em valor costumam medir os custos a partir das técnicas desenvolvidas por Robert Kaplan, conhecidas por Time-Driven Activity-Based Costing (TDABC)[2].

O TDABC é uma abordagem de contabilidade de custos que se concentra nas atividades envolvidas nos processos e nos recursos consumidos por essas atividades. Esta abordagem oferece várias vantagens quando aplicada aos serviços de saúde, tais como: (a) propicia uma visão detalhada, com maior precisão e transparência na alocação dos custos, (b) permite avaliação de desempenho dos processos e identificação de oportunidades para melhoria e tomada de decisões, (c) gera conhecimento para a redução dos custos ocultos e desperdícios, (d) facilita a adaptação a mudanças nos processos de produção dos serviços,  (e) aumenta a precisão dos processos de precificação dos serviços de saúde, por considerar não apenas os custos diretos e indiretos, mas também o tempo gasto em atividades específicas. A implementação do TDABC nos serviços de saúde envolve várias etapas.

Identificação das atividades: Identificar todas as atividades envolvidas na prestação de serviços de saúde. Isso pode incluir atividades clínicas e administrativas, desde a admissão do paciente até a alta.

Definição de unidades para medir as atividades (time-driven unit of capacity - TDUC): Determinar as unidades de atividade que serão usadas para medir o consumo de recursos ao longo do tempo. Por exemplo, em um hospital, a unidade de atividade pode ser uma consulta médica, uma cirurgia ou um dia de internação.

Mapeamento do fluxo de atividades: Mapear o fluxo de atividades para entender como cada atividade se relaciona com outras no processo de prestação de serviços de saúde.

Atribuição de custos aos recursos consumidos em cada atividade: Atribuir os custos dos recursos (como pessoal, equipamentos, instalações) às atividades identificadas para determinar os recursos consumidos, multiplicados pelo tempo gasto em cada atividade.

Determinação do tempo padrão por atividade: Estimar o tempo padrão necessário para realizar cada atividade. Isso envolve a coleta de dados sobre o tempo gasto pelos profissionais de saúde em cada atividade.

Cálculo do custo total por atividade: Calcular o custo total de cada atividade multiplicando a taxa horária do recurso pelo tempo padrão necessário para realizar a atividade.

Atribuição de custos por pacientes ou por procedimento: Atribuir os custos das atividades aos pacientes ou procedimentos específicos. Isso é feito multiplicando o custo da atividade pelo número de unidades de atividade consumidas por cada paciente ou procedimento.

Monitoramento contínuo e ajustes: Estabelecer um sistema contínuo de monitoramento para garantir a precisão e relevância dos dados. Faça ajustes conforme necessário para refletir mudanças nos processos ou nos custos dos recursos.

Aplicação em diferentes áreas do setor saúde: Estender a aplicação do TDABC a diferentes áreas de saúde, como consultórios médicos, unidades hospitalares específicas, procedimentos cirúrgicos etc.

Comunicação e educação de pessoal para o TDABC: Comunicar os resultados do TDABC às equipes de saúde, aos gestores e, quando apropriado, aos pacientes. Fornecer treinamento para garantir que todos entendam o processo e sua importância.

Tomada de decisões com base nos custos: Usar as informações obtidas por meio do TDABC para tomar decisões informadas sobre a alocação de recursos, melhoria de processos e definição de preços.

A implementação bem-sucedida do TDABC nos serviços de saúde requer uma abordagem colaborativa, envolvendo todos os profissionais de saúde, administradores, contadores e outros membros da equipe. Essa abordagem pode ajudar a otimizar a eficiência operacional e alocar recursos de maneira mais eficaz.

Trabalho # 5 – Melhoria Contínua dos Processos de Atenção

A implementação de processos de melhoria contínua em saúde, no âmbito do VBHC, envolve uma abordagem sistemática para otimizar a qualidade dos cuidados e os resultados para os pacientes e tem uma relação forte com etapas e processos já enunciados dos “trabalhos” listados anteriormente. Por exemplo, melhoria contínua no âmbito do VBHC envolve, antes de tudo, a geração de uma cultura de melhoria contínua e requer o engajamento de lideranças e incentivos à inovação e ao constante monitoramento e o feedback e participação dos pacientes.  Envolve também a definição de objetivos claros da instituição, sua missão e seus valores, através do estabelecimento de metas específicas e mensuráveis alinhadas aos resultados que importam para os pacientes. Isso pode incluir a melhoria de desfechos clínicos, a satisfação do paciente ou a eficiência operacional. Envolve ainda os temas de multidisciplinariedade do corpo profissional e clínico, com treinamento, educação contínua e diversidade de perspectivas. Envolve o mapeamento dos processos para entender o que melhorar, identificando os pontos de decisão e oportunidades de intervenção. Envolve a coleta de dados e a medição do desempenho, bem como a realização de avaliações regulares dos processos e intervenções implementadas para ajustar as abordagens com base nos resultados, assim como a identificação de gargalos e desperdícios No entanto, pode-se dizer que alguns temas são inerentes aos processos de melhoria contínua, tais como:

Aplicação de metodologias de melhoria contínua, tais como o Ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act), Lean, Six Sigma ou outras abordagens de melhoria contínua para guiar as intervenções e aprimoramentos.

Implementação de Protocolos Padrão: Desenvolver e implementar protocolos padronizados baseados em evidências sempre que possível. Isso ajuda a garantir a consistência nos cuidados e na entrega de valor.

Incentivar a Inovação: Criar um ambiente que incentive a inovação. Encorajar a experimentação e a implementação de novas abordagens para alcançar melhores resultados.

Ao seguir essas etapas, as organizações de saúde podem criar um ambiente propício para a melhoria contínua dentro do contexto do VBHC. A flexibilidade, adaptabilidade e foco nos resultados para os pacientes são fundamentais para o sucesso desses processos de aprimoramento contínuo.

Trabalho # 6: Reforma dos Modelos e Sistemas de Pagamento aos Prestadores, Fornecedores e Profissionais

Implantar uma reforma nos modelos e sistemas de pagamento aos prestadores, fornecedores e profissionais de saúde no âmbito do VBHC envolve uma mudança significativa na forma como os serviços de saúde são financiados e remunerados. Muitos afirmam, como princípio geral, a necessidade de afastar-se dos modelos de reembolso de taxas por serviço e adotar sistemas de pagamento baseados em valor, mas os nuts and bolds desse processo varia caso a caso. O importante é garantir que os prestadores estejam incentivados a prestar cuidados de alta qualidade e com boa relação custo-benefício, ou seja, melhorando os resultados dos pacientes e controlando custos. Vários modelos de pagamento são recomendados e utilizados em sistemas VBHC, incluindo:

Pagamento por desempenho (P4P): Incentiva os prestadores de cuidados de saúde a cumprir padrões de desempenho específicos ou a alcançar medidas de qualidade predefinidas. Os provedores recebem recompensas financeiras ou bônus por atingirem ou excederem esses padrões de referência. Incentiva a prestação de cuidados de alta qualidade e melhores resultados para os pacientes.

Pagamentos em pacote (bundle payment): O pagamento é feito por um episódio completo de atendimento ou por um pacote de serviços relacionados a uma condição ou procedimento específico. Incentivam a coordenação entre diferentes prestadores e instalações envolvidas no cuidado de um paciente. Os fornecedores partilham o risco financeiro e têm um incentivo para minimizar os custos, mantendo ou melhorando a qualidade.

Capitação: Os prestadores de serviços de saúde recebem um pagamento fixo mensal ou anual por paciente inscrito em um plano de saúde, independentemente do volume de serviços prestados. Incentiva cuidados preventivos e gerenciamento econômico de condições crônicas, pelo fato de serem procedimentos que reduzem custo se a perspectiva e ter um paciente cativo de longo prazo. Os provedores assumem riscos financeiros para a saúde de sua população de pacientes.

Poupança compartilhada/partilha de riscos: Os prestadores partilham as poupanças (ou perdas) financeiras obtidas através da prestação de cuidados mais rentáveis, mantendo ou melhorando a qualidade. Promove a contenção de custos e incentiva os fornecedores a gerir os recursos de forma eficiente. Os acordos de poupança partilhada variam em termos da proporção de poupança partilhada entre prestadores e pagadores.

Pagamentos Globais/Orçamentos Globais: Os prestadores recebem um orçamento fixo ou um pagamento global para cobrir toda a gama de serviços de saúde para uma população definida de pacientes. Incentivam a alocação de recursos e decisões de prestação de cuidados que otimizam a qualidade e o custo. Os provedores assumem maior responsabilidade financeira.

Pagamentos por episódio: pagamento é feito para todo o tratamento relacionado a uma condição ou procedimento médico específico. Incentivam os provedores a se concentrarem em fornecer os cuidados mais eficientes e eficazes para uma condição específica. Promovem a coordenação e continuidade do cuidado.

Pagamento Domiciliar Médico Centrado no Paciente (PCMH): As práticas de cuidados primários que funcionam como lares médicos centrados no paciente recebem pagamentos aumentados pela prestação de cuidados abrangentes, coordenados e centrados no paciente. Incentiva um forte foco nos cuidados preventivos e na coordenação dos cuidados, o que pode levar a melhores resultados de saúde.

Bônus/penalidades de qualidade: Os pagadores fornecem bônus financeiros ou impõem penalidades com base no desempenho dos prestadores de cuidados de saúde no cumprimento das medidas de qualidade e resultados. Incentivam a melhoria contínua na qualidade do atendimento.

Pagamentos Ajustados ao Risco: Ajustam os pagamentos para levar em conta variações no risco e na complexidade do paciente. Garantem que os prestadores não sejam penalizados injustamente por tratar pacientes com necessidades médicas complexas.

Estes são os principais tipos de pagamento que se vinculam aos modelos de VBHC, e que se distanciam da forma de remuneração baseada em volume. A essência, neste caso, é utilizar modelos de pagamento que recompensem os resultados em saúde e a qualidade dos cuidados, em vez de apenas a quantidade de serviços prestados. Isso pode incluir pagamentos por desfechos positivos, redução de readmissões e melhoria na satisfação do paciente e outros indicadores.

A escolha do modelo de pagamento dentro de um sistema VBHC pode variar com base no ambiente de saúde específico, na população de pacientes atendida e nos objetivos da organização de saúde. Muitas organizações utilizam uma combinação destes modelos de pagamento para alinhar incentivos e impulsionar melhorias na qualidade e eficiência dos cuidados. Também envolve a promoção de parcerias colaborativas entre pagadores, prestadores de serviços e profissionais de saúde, o que é essencial para alinhar os incentivos e garantir que todos estejam comprometidos com os mesmos objetivos de valor. A chave é selecionar modelos de pagamento que promovam valor e alinhem os interesses dos prestadores de cuidados de saúde e dos pagadores com os melhores interesses dos pacientes. No entanto, pode ser necessário implementar gradualmente os novos modelos de remuneração para permitir a adaptação de todas as partes envolvidas. Uma transição abrupta pode causar resistência e desafios operacionais.

Trabalho # 7: Gerenciamento da Saúde Populacional

A gerenciamento da saúde populacional no âmbito do VBHC envolve estratégias voltadas para a melhoria dos resultados de saúde e satisfação dos pacientes em uma população definida. O foco está na saúde de populações inteiras de pacientes, não apenas de pacientes individuais. Portanto, deve-se identificar e atender às necessidades exclusivas de diferentes grupos de pacientes.

A gestão da saúde populacional aparece como um dos pilares da teoria do VBHC formulada por Michael Porter, o qual desenvolveu suas ideias sobre o tema em diversos artigos e palestras ao longo do tempo[3]. Os princípios básicos do gerenciamento da saúde populacional são:

Identificação e estratificação da população: Identificar e estratificar a população com base em características demográficas, condições de saúde, riscos e necessidades específicas. Isso permite uma abordagem mais direcionada e personalizada.

Coleta e análise de dados: Implementar sistemas eficazes para coletar e analisar dados da população. Isso inclui dados clínicos, sociais e comportamentais para compreender integralmente as necessidades de saúde.

Definição de indicadores de desempenho: Estabelecer indicadores de desempenho da saúde da população alinhados aos objetivos do VBHC. Isso pode incluir indicadores de resultados clínicos, satisfação do paciente, eficiência e custo-efetividade.

Integração de dados: Integrar dados de diferentes fontes, como registros eletrônicos de saúde, dados de seguradoras e informações sociais. A integração permite uma visão mais holística da saúde da população.

Gestão de doenças crônicas: Desenvolver programas específicos para o gerenciamento de doenças crônicas, incluindo estratégias de prevenção, monitoramento e apoio contínuo aos pacientes.

Promoção da saúde e prevenção de doenças: Implementar iniciativas de promoção da saúde e prevenção de doenças. Isso pode envolver campanhas de conscientização, programas de vacinação, rastreamento de doenças e outras estratégias preventivas.

Cuidados coordenados e continuados: Facilitar a coordenação de cuidados entre diferentes profissionais e setores de saúde. Garantir que os cuidados sejam contínuos e integrados ao longo do tempo.

Engajamento dos pacientes: Envolver ativamente os pacientes na gestão de sua própria saúde. Isso inclui programas de educação, apoio à tomada de decisões e estratégias para melhorar a adesão ao tratamento.

Uso de modelos de pagamento baseados em valor: Utilizar modelos de pagamento que recompensem os prestadores de serviços por melhorias nos resultados de saúde e na gestão da saúde populacional.

Equipes multidisciplinares para análise da saúde populacional: Formar equipes multidisciplinares que incluam profissionais de saúde, assistentes sociais, especialistas em saúde mental e outros para abordar as necessidades diversas da população.

Uso de tecnologia da informação: Alavancar tecnologia da informação para apoiar a gestão da saúde populacional. Isso pode incluir o uso de análise de dados, telemedicina, registros eletrônicos de saúde interoperáveis, entre outros.

Monitoramento contínuo e ajustes: Implementar sistemas de monitoramento contínuo para avaliar o desempenho da gestão da saúde populacional. Ajustar estratégias com base nos dados e resultados obtidos.

Parcerias com comunidades locais: Estabelecer parcerias com comunidades locais para entender as necessidades específicas e envolver os residentes na promoção da saúde.

Avaliação de impacto econômico e social: Avaliar o impacto econômico e social das intervenções na gestão da saúde populacional. Isso pode incluir a análise do custo-efetividade e dos benefícios sociais.

Ao implementar essas estratégias, as organizações de saúde podem melhorar a eficácia da gestão da saúde populacional no contexto do VBHC, proporcionando cuidados mais personalizados, eficientes e centrados no valor para a comunidade. Este é, além de tudo, uma importante contribuição da saúde para a dimensão Social nas propostas de ESG (Environmental, Social and Governance). O foco do VBHC na melhoria dos resultados do paciente, na qualidade dos cuidados e na experiência do paciente contribui diretamente para o impacto social. Ao proporcionar cuidados de alta qualidade e centrados no paciente, as organizações de saúde podem melhorar a saúde da comunidade e a satisfação geral. Por outro lado, o VBHC também pode abordar questões de equidade no acesso aos cuidados de saúde. Ao medir e gerenciar os resultados para diferentes populações, as organizações podem trabalhar para eliminar disparidades e melhorar a equidade na prestação de serviços de saúde.

Trabalho # 8: Tecnologia da Informação

A implementação bem-sucedida do VBHC requer uma infraestrutura de Tecnologia da Informação (TI) robusta para suportar a coleta, análise e utilização de dados relevantes. Os principais requisitos de TI para implantar o VBHC são:

Sistemas de registros eletrônicos de saúde (EHR): EHR eficientes e interoperáveis são fundamentais para coletar e compartilhar informações sobre os pacientes. Eles facilitam a integração de dados de diferentes fontes e fornecem uma visão abrangente do histórico de saúde de um paciente.

Padronização de dados: Garantir a padronização e a qualidade dos dados é crucial para a integridade das informações. O uso de padrões interoperáveis, como HL7[4] e FHIR[5], promove a troca eficiente de dados entre sistemas.

Analytics e ferramentas de Business Intelligence (BI): Sistemas analíticos poderosos são necessários para processar grandes volumes de dados e extrair insights valiosos. Ferramentas de BI ajudam na visualização e interpretação desses dados, permitindo uma tomada de decisões informada.

Sistemas de relatórios e dashboards: Capacidade de criar relatórios personalizados e dashboards que exibem indicadores-chave de desempenho (KPIs) relacionados aos resultados do paciente e aos custos. Esses relatórios facilitam a avaliação contínua e a prestação de contas.

Integração de dados financeiros: Integrar dados financeiros com informações clínicas é essencial para uma visão abrangente do custo dos cuidados em relação aos resultados. Isso inclui sistemas que rastreiam os custos associados a diferentes intervenções e procedimentos.

Segurança da informação: Implementar medidas de segurança robustas para proteger dados sensíveis dos pacientes. Isso inclui controles de acesso, criptografia, monitoramento de atividades suspeitas e conformidade com regulamentações de privacidade, como o HIPAA[6].

Interoperabilidade: Garantir que os sistemas de TI sejam interoperáveis, permitindo a troca eficiente de dados entre diferentes sistemas e provedores de cuidados de saúde. Isso é crucial para uma abordagem integrada no VBHC.

Ferramentas para Engajamento do Paciente: Plataformas que suportam o engajamento ativo do paciente, como portais de saúde online, aplicativos móveis e outras ferramentas interativas. Isso facilita a participação do paciente na gestão de sua própria saúde.

Telemedicina e Ferramentas de Monitoramento Remoto: Integração de tecnologias de telemedicina e ferramentas de monitoramento remoto para apoiar a prestação de cuidados a distância e coletar dados fora do ambiente clínico tradicional.

Machine Learning e Inteligência Artificial: A aplicação de técnicas de machine learning e inteligência artificial pode ajudar na identificação de padrões complexos nos dados, fornecendo insights preditivos e suportando a tomada de decisões clínicas e operacionais.

Capacidade de Escala e Atualizações Contínuas: Garantir que os sistemas de TI sejam escaláveis para lidar com o crescimento do volume de dados. Além disso, uma infraestrutura flexível permite a incorporação contínua de avanços tecnológicos.

Colaboração e Compartilhamento de Informações: Facilitar a colaboração e o compartilhamento de informações entre diferentes partes interessadas, incluindo hospitais, clínicas, prestadores de serviços, pagadores e pacientes.

Ao atender a esses requisitos de TI, as organizações de saúde estarão mais bem posicionadas para implementar com sucesso o VBHC, melhorando a qualidade dos cuidados, otimizando os custos e impulsionando resultados positivos para os pacientes.

Trabalho # 9: Equipes integradas de trabalho

A integração do trabalho em equipe desempenha um papel crucial na implementação bem-sucedida do VBHC por potencializar a melhoraria os resultados dos pacientes e a eficiência dos cuidados. Uma colaboração efetiva entre membros da equipe de saúde é fundamental para alcançar esses objetivos. Aqui estão algumas maneiras pelas quais a integração do trabalho em equipe é relevante para o VBHC:

Cuidados coordenados: O VBHC enfatiza a importância de cuidados coordenados e integrados ao longo do tempo. Uma equipe de saúde integrada pode colaborar para garantir que os pacientes recebam cuidados contínuos e consistentes, evitando lacunas no tratamento.

Compartilhamento de informações: A integração do trabalho em equipe facilita o compartilhamento eficiente de informações entre os membros da equipe de saúde. Isso é crucial para uma compreensão abrangente do histórico do paciente, resultados de tratamentos anteriores e outras informações relevantes.

Definição de metas comuns: A equipe de saúde deve trabalhar em conjunto para definir metas comuns relacionadas aos resultados do paciente. Isso envolve uma compreensão compartilhada dos objetivos do tratamento e dos indicadores de desempenho que são importantes para a qualidade dos cuidados.

Abordagem centrada no paciente: A integração do trabalho em equipe suporta uma abordagem centrada no paciente, na qual os membros da equipe colaboram para atender às necessidades individuais do paciente. Isso inclui ouvir as preferências do paciente e envolvê-lo ativamente no processo de tomada de decisões.

Papel de diversos profissionais: Diferentes profissionais de saúde desempenham papéis específicos no cuidado ao paciente. A integração do trabalho em equipe permite que médicos, enfermeiros, terapeutas e outros profissionais colaborem efetivamente, aproveitando as habilidades específicas de cada um.

Medição e avaliação conjunta: A implementação bem-sucedida do VBHC envolve a medição e avaliação contínuas dos resultados do paciente. A equipe de saúde deve trabalhar em conjunto para coletar dados, analisar resultados e fazer ajustes nas estratégias de tratamento, conforme necessário.

Resolução de problemas de forma colaborativa: Quando surgem desafios no tratamento ou na gestão de casos, a integração do trabalho em equipe facilita a resolução de problemas de maneira colaborativa. Os membros da equipe podem contribuir com suas perspectivas e experiências para encontrar soluções eficazes.

Compartilhamento de melhores práticas: A integração do trabalho em equipe também permite o compartilhamento de melhores práticas e aprendizados entre os membros da equipe. Isso promove a melhoria contínua dos cuidados com base na experiência coletiva.

Adoção de modelos de pagamento baseados em valor: A mudança para modelos de pagamento baseados em valor, como proposto pelo VBHC, muitas vezes requer uma abordagem colaborativa da equipe de saúde para garantir que os esforços estejam alinhados com os objetivos de melhoria dos resultados.

Comunicação Efetiva: Uma comunicação efetiva é crucial para a integração do trabalho em equipe. Isso inclui uma comunicação clara entre os membros da equipe, bem como com os pacientes, para garantir que todos estejam alinhados com os objetivos de tratamento.

A integração do trabalho em equipe não apenas fortalece a implementação do VBHC, mas também contribui para uma prestação de cuidados de saúde mais eficaz, centrada no paciente e orientada para resultados positivos.

Trabalho # 10:  Envolvimento e Capacitação do Paciente:

O envolvimento e a capacitação do paciente desempenham um papel crucial na implementação bem-sucedida do VBHC ao contribuir para melhorar os resultados dos pacientes. A participação ativa e informada dos pacientes é fundamental para alcançar esse objetivo. Aqui estão algumas maneiras pelas quais o envolvimento e a capacitação do paciente podem contribuir para a implementação do VBHC:

Tomada de decisões compartilhada: O VBHC incentiva a tomada de decisões compartilhada entre os profissionais de saúde e os pacientes. O envolvimento ativo dos pacientes na tomada de decisões sobre seu tratamento leva a escolhas mais alinhadas com suas preferências e necessidades individuais.

Definição de metas personalizadas: Ao envolver os pacientes na definição de metas de tratamento, o VBHC permite que as metas sejam personalizadas de acordo com as preferências e prioridades individuais dos pacientes. Isso contribui para um tratamento mais centrado no paciente.

Autocuidado das condições crônicas: Pacientes capacitados são mais propensos a assumir um papel ativo no gerenciamento de suas condições crônicas. O VBHC, ao enfocar resultados a longo prazo, beneficia-se significativamente do autocuidado eficaz das condições pelos próprios pacientes.

Adesão ao tratamento: O envolvimento do paciente na definição de metas e na tomada de decisões pode aumentar a adesão ao tratamento. Quando os pacientes compreendem a importância das intervenções propostas, são mais propensos a seguir o plano de tratamento prescrito.

Participação em programas de prevenção: O VBHC coloca uma ênfase significativa na prevenção de doenças e na promoção da saúde. Pacientes capacitados podem participar ativamente de programas de prevenção, adotando estilos de vida saudáveis e monitorando fatores de risco.

Feedback e avaliação contínua: Pacientes envolvidos podem fornecer feedback valioso sobre sua experiência e resultados do tratamento. A coleta contínua de feedback contribui para a avaliação e melhoria contínua dos processos de cuidados no âmbito do VBHC.

Acesso a informações de saúde: O VBHC promove o acesso dos pacientes às suas próprias informações de saúde. Pacientes capacitados têm a capacidade de acessar registros eletrônicos de saúde, resultados de testes e outras informações relevantes, permitindo uma participação mais ativa no gerenciamento de sua saúde.

Educação em saúde: A capacitação do paciente envolve a educação em saúde, fornecendo informações compreensíveis sobre suas condições, opções de tratamento e medidas preventivas. Pacientes informados estão mais preparados para participar ativamente de suas jornadas de saúde.

Compreensão dos custos e benefícios: Pacientes envolvidos podem compreender melhor os custos e benefícios associados a diferentes opções de tratamento. Isso é particularmente relevante em um contexto de VBHC, onde a eficiência dos cuidados e os custos associados são considerados.

Consciência e promoção da saúde mental: O envolvimento e a capacitação do paciente no VBHC também incluem a atenção à saúde mental. Isso pode envolver a conscientização sobre questões de saúde mental, o acesso a recursos de suporte e a promoção do bem-estar emocional.

Ao envolver e capacitar os pacientes, o VBHC pode ser mais eficaz na busca por resultados de saúde positivos, na promoção da prevenção de doenças e no aprimoramento da experiência do paciente. A parceria ativa entre profissionais de saúde e pacientes é fundamental para o sucesso do VBHC.

Trabalho # 11: Responsabilidade do Prestador

A implementação bem-sucedida do VBHC, como já foi dito anteriormente, exige uma mudança na mentalidade e práticas dos prestadores de serviços de saúde. A transição para o VBHC implica uma maior responsabilidade na entrega de resultados de saúde efetivos e eficientes. A responsabilidade do prestador deve estar relacionada a vários aspectos, tais como:

a definição clara de metas e indicadores de desempenho, permitindo a avaliação do alcance dos resultados,

a garantia de que os pacientes estão envolvidos na definição das metas associadas à sua saúde, de forma a promover a tomada de decisões compartilhada e garantir que as metas se alinhem às preferências e prioridades individuais dos pacientes,

a mensuração contínua de resultados do paciente, para garantir a melhoria de sua qualidade de vida, recuperação funcional e satisfação;

a adoção de práticas baseadas em evidências, que demonstrem eficácia na melhoria dos resultados dos pacientes, incluindo a revisão regular de diretrizes clínicas e a incorporação de inovações com base em resultados comprovados,

a promoção da saúde e prevenção de doenças, através de estratégias de saúde pública, rastreamento precoce e intervenções para evitar o desenvolvimento de condições crônicas,

a integração e coordenação dos cuidados entre distintos prestadores e diferentes especialidades e níveis de atendimento, para evitar lacunas nos cuidados e gerar uma experiência de cuidado mais fluida e centrada no paciente,

a transparência nos custos e na qualidade dos serviços, através da comunicação dos custos associados aos diferentes procedimentos e intervenções, ao mesmo tempo em que demonstrando a qualidade e eficácia dos cuidados,

a garantia de capacitação dos profissionais de saúde, através da oferta de treinamento e capacitação contínuos a estes, incluindo o desenvolvimento de habilidades em comunicação efetiva, trabalho em equipe, gestão de dados e adoção de práticas baseadas em valor,

o aprimoramento contínuo, através da coleta e análise de feedback dos pacientes para identificar falhas e aprimorar continuamente a prestação de cuidados. Os prestadores devem incentivar a participação dos pacientes no processo de melhoria e responder proativamente às suas preocupações e sugestões,

os prestadores devem estar abertos à inovação em modelos de atenção, incluindo o uso de tecnologias avançadas, telemedicina e práticas colaborativas que melhorem a eficácia e a eficiência dos cuidados.

Ao melhorar a responsabilidade do prestador, os sistemas de saúde podem avançar na direção do VBHC, proporcionando cuidados de maior qualidade, centrados no paciente e com resultados mais eficientes. Essa abordagem beneficia tanto os prestadores quanto os pacientes, promovendo uma prestação de cuidados mais eficaz e orientada para o valor.

Trabalho # 12: Gerenciamento de Riscos

O gerenciamento de riscos desempenha um papel significativo na implementação bem-sucedida do VBHC. Ao adotar uma abordagem baseada em valor, é crucial identificar, avaliar e mitigar riscos potenciais que podem afetar a qualidade dos cuidados, a eficiência e os resultados dos pacientes. Aqui estão algumas maneiras pelas quais o gerenciamento de riscos pode contribuir para a implementação do VBHC:

Identificação de riscos específicos: O gerenciamento de riscos no contexto do VBHC envolve a identificação de riscos específicos que podem afetar a prestação de cuidados de saúde centrados no valor. Isso inclui riscos relacionados à qualidade dos cuidados, custos, satisfação do paciente e eficiência operacional.

Análise de riscos financeiros: O VBHC está associado a modelos de pagamento baseados em resultados. O gerenciamento de riscos financeiros é essencial para avaliar e mitigar possíveis impactos financeiros adversos, garantindo que os custos estejam alinhados com os resultados desejados.

Avaliação de riscos clínicos: O gerenciamento de riscos clínicos envolve a avaliação de fatores que podem afetar negativamente os resultados clínicos dos pacientes. Isso inclui a identificação de práticas clínicas de alto risco, falhas na coordenação do cuidado e possíveis desfechos adversos.

Monitoramento de indicadores de desempenho: O estabelecimento e monitoramento contínuo de indicadores de desempenho são parte integrante do gerenciamento de riscos no VBHC. Isso permite que os prestadores identifiquem desvios em relação às metas estabelecidas e tomem medidas corretivas quando necessário.

Produção sistemática de relatórios e transparência: A transparência é fundamental para o VBHC. Os sistemas de relatórios devem ser implementados para comunicar abertamente informações sobre resultados, custos e outros indicadores de desempenho. Isso ajuda a evitar riscos associados à falta de transparência.

Envolvimento dos pacientes no gerenciamento de riscos: Os pacientes desempenham um papel vital no VBHC, e seu envolvimento no gerenciamento de riscos é crucial. Isso pode incluir a identificação de riscos percebidos pelos pacientes, bem como a promoção da adesão ao tratamento e à prevenção de complicações.

Estratégias de prevenção e intervenção: O gerenciamento de riscos no VBHC envolve o desenvolvimento de estratégias proativas de prevenção, bem como intervenções eficazes quando os riscos se materializam. Isso pode incluir protocolos de segurança, práticas de prevenção de infecções e estratégias para melhorar a segurança do paciente.

Integração de tecnologia e análise de dados: A tecnologia desempenha um papel crucial no gerenciamento de riscos no VBHC. A implementação de sistemas de informação robustos e a análise de dados permitem uma monitorização em tempo real e uma resposta mais rápida a eventos adversos.

Capacitação dos profissionais de saúde: A capacitação dos profissionais de saúde em práticas seguras e eficazes contribui para a mitigação de riscos clínicos. Isso pode envolver treinamento contínuo, protocolos padronizados e práticas baseadas em evidências.

Avaliação de riscos sistêmicos: Além dos riscos individuais, o gerenciamento de riscos no VBHC deve incluir uma avaliação de riscos sistêmicos, como mudanças nas políticas de saúde, variações na demanda e eventos externos que possam impactar a prestação de cuidados.

Ao integrar estratégias eficazes de gerenciamento de riscos, os prestadores de serviços de saúde podem enfrentar desafios potenciais de maneira proativa, promovendo a qualidade, a eficiência e a segurança dos cuidados no contexto do VBHC. Isso contribui para a obtenção de resultados de saúde positivos e alinhados com os objetivos de valor

Considerações Finais

A implementação dos 12 trabalhos não é uma tarefa fácil. A transição para o VBHC requer uma mudança significativa na cultura e na mentalidade dos profissionais de saúde, administradores e pacientes. A adoção de uma abordagem centrada no valor e resultados exige uma transformação na forma como os cuidados são concebidos, prestados e avaliados.

Estabelecer métricas claras e consistentes para medir os resultados dos pacientes pode ser desafiador, já que definir indicadores de desempenho significativos e implementar sistemas eficazes de coleta de dados exigem tempo e recursos.

A implementação bem-sucedida do VBHC depende da capacidade de integrar eficientemente sistemas de informação de saúde. A interoperabilidade entre sistemas de registros eletrônicos, registros de saúde e outras fontes de dados é crucial para obter uma visão holística do paciente.

Por outro lado, envolver os pacientes de maneira significativa no processo de cuidados e na tomada de decisões pode ser um desafio. Educar os pacientes sobre o VBHC, promover a tomada de decisões compartilhada e incentivar a adesão ativa ao tratamento são elementos-chave que requerem esforços contínuos.

A transição de modelos de pagamento tradicionais para modelos baseados em valor pode ser complexa. Os sistemas de saúde precisam desenvolver e implementar modelos de pagamento que recompensem resultados positivos, eficiência e qualidade, o que muitas vezes envolve superar barreiras regulatórias e financeiras.

A variabilidade na prática clínica pode ser um desafio para o VBHC, uma vez que a consistência nos cuidados é fundamental para avaliações justas de resultados e custos. Superar variações nas abordagens clínicas e promover a padronização pode ser um processo gradual.

A qualidade dos dados é crucial para avaliações precisas de resultados. Garantir que os dados coletados sejam precisos, completos e relevantes pode exigir investimentos significativos em infraestrutura tecnológica e treinamento.

Profissionais de saúde, gestores e outros membros da equipe podem resistir à mudança para o VBHC, especialmente quando isso implica em abandonar práticas tradicionais. Superar a resistência à mudança e garantir a aceitação e colaboração de todos os envolvidos são desafios críticos.

O VBHC deve abordar as desigualdades sociais e de acesso aos cuidados de saúde. Garantir que as melhorias nos resultados de saúde não acentuem disparidades existentes requer atenção especial.

Em suma, implementar o VBHC muitas vezes exige investimentos significativos em tecnologia, treinamento, infraestrutura e mudanças nos processos de prestação de cuidados. Muitas organizações podem enfrentar desafios financeiros ao fazer esses investimentos no curto prazo.

A superação desses desafios requer liderança eficaz, colaboração entre diferentes partes interessadas, educação contínua e uma abordagem estratégica e flexível à implementação do VBHC. É importante reconhecer que a transição para um modelo baseado em valor é um processo gradual que pode exigir ajustes contínuos ao longo do tempo. Assim, diferentemente do que ocorreu com Hércules, uma implementação bem-sucedida destas condições poderá permitir que as instituições venham a funcionar em condições mais vantajosas, mas não lhes garante nem a imortalidade e nem o Olimpo de forma imediata.



[1] Os 12 trabalhos destinados a Hércules, pela sua descrição, eram tarefas complexas e praticamente impossíveis de realizar, a não ser por muita astúcia, força, coragem e determinação. Estes trabalhos, de acordo com a mitologia grega, foram: (1) Matar o Leão de Nemeia; (2) Matar a Hidra de Lerna; (3) Capturar a Corça de Cerínia; (4) Capturar o Javali de Erimanto; (5) Limpar os Estábulos de Augias; (6) Matar as Aves do Estínfalo; (7) Capturar o Touro de Creta; (8) Roubar os Cavalos de Diomedes; (9) Obter o Cinturão de Hipólita; (10) Obter o Gado de Gerião; (11) Obter as Maçãs de Ouro do Jardim das Hespérides e; (12) Capturar o Cão de Três Cabeças chamado de Cérbero.

[2] Uma revisão sistemática dos conceitos e aplicações do TDABC pode ser encontrada em George Keel, Carl Savage, Muhammad Rafiq, Pamela Mazzocato, Time-driven activity-based costing in health care: A systematic review of the literature, in Health Policy, 121 (2017) 755–763, Ed. Elsevier.

 [3] Um de seus trabalhos mais conhecidos e influentes nessa área é o artigo "A Strategy for Health Care Reform—Toward a Value-Based System", publicado no New England Journal of Medicine, em 2009. Link: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp0904131

[4] HL7 (Health Level Seven International) é uma organização sem fins lucrativos que desenvolve padrões para a troca de informações de saúde entre sistemas de informação em saúde. Fundada em 1987, a HL7 é uma das principais organizações de padronização na área da saúde, visando melhorar a interoperabilidade e a comunicação entre sistemas de informação de saúde. Os padrões HL7 são projetados para facilitar a troca de dados clínicos e administrativos entre diferentes sistemas de saúde, promovendo a integração e a coordenação dos cuidados.

 [5] FHIR (Fast Healthcare Interoperability Resources) é um padrão de interoperabilidade em saúde desenvolvido pela HL7. O FHIR foi projetado para facilitar a troca de informações de saúde entre sistemas de informação em saúde de maneira rápida, fácil e eficiente. Ele utiliza padrões modernos da web, como RESTful API (Application Programming Interface), para permitir a comunicação entre sistemas heterogêneos.

[6] HIPAA (Health Insurance Portability and Accountability Act ou Lei de Portabilidade e Responsabilidade do Seguro de Saúde), é uma legislação dos Estados Unidos promulgada em 1996 com o objetivo principal de proteger a privacidade e segurança das informações de saúde dos indivíduos. A lei foi criada para abordar questões relacionadas à portabilidade dos planos de saúde e à segurança das informações de saúde em um ambiente cada vez mais digital. O HIPAA, entre outras coisas, estabelece normas rigorosas para proteger a privacidade e segurança das informações de saúde dos pacientes. Isso inclui dados mantidos por planos de saúde, prestadores de serviços de saúde e outras entidades relacionadas.

sexta-feira, novembro 03, 2023

Inovações na Produção Farmacêutica: Estará o Brasil preparado?

Ano 18, Número 136, Novembro de 2023

André C. Medici

 

A inovação e as promessas para a indústria farmacêutica brasileira

Nos últimos anos, a indústria farmacêutica tem passado por grandes transformações, não apenas pela progressiva substituição da indústria de base química pelas de base biotecnológica e genômica, mas também pelo desenvolvimento de novos processos de fabricação e controle de qualidade de medicamentos. Entre estas inovações podemos destacar os processos de produção contínua (em substituição à tradicional produção em lotes), a impressão 3D, e o uso massivo das tecnologias de informação, como a inteligência artificial, aprendizagem de máquina (machine learning), internet das coisas, produção inteligente, big data, processos robóticos, block chain, realidade virtual e muitas outras. Estas inovações têm impulsado a eficiência global da indústria farmacêutica nos últimos anos, com implicações, inclusive, na melhoria da qualidade, velocidade de produção, redução do desperdício, aumento da flexibilidade e maiores possibilidades de otimização e controle dos processos produtivos.

Estaria a indústria farmacêutica brasileira preparada para operar com base em inovações como os processos de produção contínua ou o uso das tecnologias de informação na fabricação de medicamentos? A resposta não é automática. Segundo os dados da Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (INTERFARMA), o Brasil seria em 2022 o sexto maior mercado farmacêutico mundial, e as maiores empresas farmacêuticas nacionais[1] tem incorporado inovações, não apenas pela sua dimensão e dinamismo, mas também pela sua relação com a produção e o mercado internacional.



No entanto, a eficiência da indústria farmacêutica no Brasil tem sido influenciada por uma série de fatores, incluindo regulamentação pública, recursos para a pesquisa e desenvolvimento e acesso da sua produção aos mercados nacionais e internacionais. Algumas empresas brasileiras têm uma boa reputação internacional, enquanto outras enfrentam desafios em termos de eficiência e competitividade.

Os anuários estatísticos produzidos pela Secretaria Executiva da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (SCMED) do Ministério da Saúde mostram que, ainda que o acesso a medicamentos básicos seja um grande problema no Brasil, a atividade industrial no setor parece ter se contraído, especialmente durante os anos da pandemia do Covid-19, como mostra o gráfico ao lado. Verifica-se que entre 2015 e 2022 houve uma redução no número de produtos farmacêuticos comercializados no Brasil. O número de empresas farmacêuticas ativas no país, ainda que tenha aumentado entre 2015 e 2019, teve uma redução a partir de então, apesar do pico verificado no ano de 2021. Entre 2021 e 2022, o faturamento da indústria farmacêutica brasileira se reduziu de 135,3 para 131,2 bilhões de reais, com uma perda de 3%, e o número de embalagens comercializadas se reduziu de 7,7 para 5,7 bilhões no mesmo período (quase 26% de redução).

O mercado de produtos biológicos tem crescido lentamente no Brasil, apesar da crise pandêmica. A percentagem de biológicos comercializados aumentou de 4.5% para 4.6% entre 2019 para 2022 e o faturamento de produtos biológicos chegou a 26% do faturamento total da indústria farmacêutica em 2022, o que não é tão diferente dos Estados Unidos, que está na ponta deste mercado, onde o faturamento dos biológicos alcançou 37% do mercado farmacêutico.

Outro fato positivo a ser destacado é o crescimento do número de produtos farmacêuticos genéricos presentes no mercado brasileiro, que passou de 35% para 38% do total de produtos farmacêuticos disponíveis entre 2019 e 2022. O faturamento no mercado de genéricos evoluiu de 12% para 41% do total de vendas de medicamentos no país, no mesmo período. Os genéricos respondem por 36,7% das vendas em unidades no conjunto do mercado farmacêutico brasileiro[2]. Em países como Espanha, França, Alemanha e Reino Unido, onde o mercado de genéricos já está mais maduro, a participação desses medicamentos é de 51%, 62%, 57% e 74%, respectivamente. Nos EUA, onde os genéricos têm mais de 50 anos de existência, o índice é de aproximadamente 60% de participação em volume[3].

A atual política de saúde no Brasil tem, entre uma de suas principais ações, o fortalecimento do Complexo Industrial da Saúde (CIS), abrangendo não apenas a indústria farmacêutica, mas também a produção de equipamentos médicos, dispositivos médicos e produtos para a saúde. O objetivo do CIS é promover o desenvolvimento econômico, a inovação e a melhoria do acesso a produtos de saúde no Brasil.

Em tese, o fortalecimento do CIS teria o potencial de promover a integração e a diversificação da indústria de saúde brasileira, para reduzir a dependência de importações e aumentar a capacidade de resposta durante crises de saúde e evitar problemas de desabastecimento como os ocorridos durante a pandemia do Covid-19. Na área de inovação, o governo pretende contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos e tecnologias de saúde, tornando a indústria mais dinâmica e competitiva. Com isso, se pretende também fomentar o acesso da população a medicamentos e produtos de saúde para garantir que cubram suas necessidades de forma mais eficaz e efetiva.

Mas o fortalecimento do CIS na área farmacêutica somente será efetivo ao melhorar a regulação e o ambiente de negócios da indústria, através da simplificação e redução da burocracia para a aprovação de novos medicamentos e da agilização de recursos para o investimento e para o desenvolvimento de parcerias entre o setor privado e instituições acadêmicas e de pesquisa. A indústria farmacêutica é altamente regulamentada no Brasil, e a conformidade com as regulamentações, ainda que fundamental para garantir a segurança e a qualidade dos produtos, pode criar barreiras para inovações e para a introdução de novas tecnologias, como os processos de produção contínua e o uso de inteligência artificial, levando a necessidade de adaptações nos processos de conformidade regulatória.

Por outro lado, a adoção de tecnologias inovadoras requer investimentos significativos em equipamentos, treinamento e pesquisa. Algumas empresas farmacêuticas inovadoras no Brasil, especialmente as de médio porte, não dispõem de recursos suficientes para investir em novas tecnologias e os recursos públicos fiscais para o apoio a pesquisa contribuem de forma limitada para estes investimentos na atual conjuntura onde é necessário controlar a gigantesca pressão fiscal do país, em um contexto em que o governo tende a utilizar os recursos públicos existentes para acomodar os interesses dos donos dos três poderes da república.

A implantação de inovações baseadas na inteligência artificial requer pessoal qualificado, tanto para operá-las, como para mantê-las e otimizá-las. Mas há forte escassez, no Brasil, de centros de formação para capacitar especialistas em tecnologias da informação na quantidade necessária para trabalhar nestes processos. Essa escassez poderia, de alguma forma, ser suprida se são implementadas políticas de parcerias e colaboração com instituições de pesquisa, universidades e órgãos regulatórios, o que necessita ser melhor especificado nos planos de governo, para que passem das listas de intensões para a realidade.  

Por fim, vale mencionar que a globalização colocou por terra a ideia de substituição de importações a qualquer custo. A divisão internacional do trabalho busca se organizar a partir de vantagens comparativas e da inserção dos países com boas políticas e relações externas nas cadeias produtivas globais. Para competir globalmente, a indústria farmacêutica brasileira pode precisar adotar inovações que melhorem sua eficiência, qualidade e capacidade de produção. Se isso não ocorrer, produzir por um custo maior do que o que se pode adquirir no mercado global seria mais uma forma de desperdício e geração de ineficiências.

Portanto, ressalvadas todas essas observações, o fortalecimento do CIS poderá ser uma parte importante da solução para os desafios enfrentados pela indústria farmacêutica no Brasil, mas é necessário que seja implementado de forma eficaz e complementado por outras medidas, incluindo melhorias regulatórias, investimentos em pesquisa e desenvolvimento e melhoria no acesso a medicamentos para a população brasileira.

 

Os processos de produção farmacêutica contínua (PFC)

Uma das revoluções que recentemente tem aumentado a eficiência da indústria farmacêutica nos países mais ricos são os processos de produção farmacêutica contínua (PFC). Este tipo de processo difere da fabricação tradicional em lote, presente na maioria das empresas farmacêuticas brasileiras. Na fabricação tradicional em lotes, os produtos farmacêuticos se produzem através de lotes separados, onde as matérias-primas são misturadas, processadas e depois coletadas em lotes antes de passar para a próxima etapa. A fabricação contínua rompe com esta lógica de produção industrial já que é um processo mais simplificado e contínuo no qual as matérias-primas são continuamente alimentadas no sistema de fabricação e o produto é continuamente produzido, monitorado e controlado sem interrupções.

Em outras palavras, ao contrário da fabricação em lote onde os ingredientes farmacêuticos ativos (IFA) ou produtos farmacêuticos finais são produzidos em etapas intermitentes e geralmente ocorrem em muitos locais diferentes, a PFC permite que cada elemento da fabricação ocorra em um processo contínuo em uma única instalação. Assim, a tecnologia PFC pode ajudar a aumentar a eficiência, reduzir custos, reduzir a pegada ambiental, acelerar a produção e aumentar a escala em resposta a emergências, bem como reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros e ajudar a prevenir a escassez, principalmente de IFA, em momentos de crises de abastecimento das cadeias produtivas globais.

As principais vantagens da PFC estão na melhoria da qualidade, agilidade, aumento da eficiência e redução de custos, redução do desperdício, flexibilidade e adaptação frente as flutuações da demanda. Isto porque a PFC permite o monitoramento e controle em tempo real de vários parâmetros, levando a uma qualidade do produto mais consistente. Reduz o tempo e aumenta a eficiência geral da produção, com efeitos de curto prazo na redução dos custos. Minimiza o desperdício, pois há menos necessidade de limpeza entre lotes e qualquer produto fora das especificações pode ser identificado e retirado imediatamente da linha da produção. Ao mesmo tempo, os fabricantes podem ajustar rapidamente a produção para atender às mudanças na demanda, tornando o processo mais customizado as exigências quantitativas e qualitativas do mercado. Exige o uso da inteligência artificial na linha de produção, fornecendo constantemente dados e insights sobre o processo de fabricação e permitindo otimizar, a cada momento, o controle do processo.

Os custos associados à PFC diferem da fabricação tradicional em lotes por vários motivos, os quais podem variar dependendo dos produtos, processos e da extensão da automação e técnicas de otimização da produção. Para exemplificar, no que se refere aos custos de capital a implementação da PFC pode exigir um investimento inicial significativo em equipamentos especializados, sistemas de automação e tecnologias de controle de processo. Neste sentido, seus custos iniciais de implantação podem ser maiores do que os da fabricação tradicional em lotes, a qual demanda menos equipamentos.

Isto se compensa, a médio prazo, pela redução dos custos operacionais, dado que a PFC tende a reduzir os custos de mão de obra, pois muitas vezes exige menos trabalho manual e supervisão do que fabricação em lote, onde os custos de mão de obra são mais elevados devido a operações manuais e requisitos de limpeza e configuração do produto lote a lote. Contudo, os custos de operação e manutenção da PFC podem ser elevados devido ao uso de equipamentos sofisticados.

A PFC minimiza o desperdício de material e reduz o consumo de matéria-prima, uma vez que há menos necessidade de material adicional para compensar variações de lote para lote, os quais geram mais resíduos devido à necessidade de limpeza de equipamentos entre lotes e ao risco de geração de produtos fora das especificações.

Ao mesmo tempo, a PFC geralmente resulta em maior eficiência de produção, reduzindo os tempos do ciclo de produção e melhorando o rendimento geral, diferentemente do que ocorre na fabricação em lotes, baseada em ciclos de produção mais longos e procedimentos complexos de limpeza e configuração. Dessa forma a PFC garante maior qualidade do produto e reduz os custos associados ao retrabalho ou rejeição de lotes fora das especificações. Os processos tradicionais demandam testes e análises de controle de qualidade mais extensos, o que pode aumentar os custos.

A PFC pode oferecer maior flexibilidade na adaptação às mudanças na demanda e às variações do produto, reduzindo potencialmente os custos de trocas e reconfigurações. Na fabricação tradicional em lote os processos são mais rígidos dificultando respostas às variações na demanda do produto ou às mudanças nas formulações dos produtos, aumentando potencialmente os custos relacionados às trocas.

 

Motivos e restrições ao uso de processos de PFC

A relação custo-benefício na comparação entre a PFC e a fabricação tradicional em lotes dependerá das circunstâncias individuais do fabricante farmacêutico. Uma análise completa de custo-benefício deve ser realizada para determinar qual abordagem é mais adequada para um determinado produto ou instalação de fabricação.

A PFC tem sido aplicada, nos últimos anos, em diversos segmentos da indústria farmacêutica, incluindo a produção de IFA, medicamentos orais sólidos, como comprimidos e cápsulas e até mesmo biofármacos. Nos Estados Unidos muitas empresas farmacêuticas conhecidas, como Pfizer, Eli Lilly, Glaxo Smith Kline e outras, vêm adotando os métodos de PFC e comprovando seus méritos comerciais, e as agências reguladoras, como o FDA, têm incentivado a implementação da PFC pela simples razão de melhoraria da qualidade dos produtos, aumento de eficiência, redução de custo e menor risco de escassez de medicamentos.

Embora a extensão do uso da PFC possa variar de uma empresa para outra, pois depende de fatores como o tipo de produto farmacêutico fabricado e os processos de fabricação específicos em vigor, sua adoção tem sido implementada em diversas instalações de produção farmacêutica em todo o mundo. Além do mais, os desafios da cadeia de abastecimento de medicamentos agravados pela pandemia da COVID-19 levantaram preocupações sobre a concentração geográfica das instalações de produção farmacêutica globais e enfatizaram a necessidade de produzir mais medicamentos em mais locais para ajudar a garantir a resiliência da cadeia de abastecimento. Por sua maior eficiência na organização da produção farmacêutica, os métodos de PFC tem recebido cada vez mais atenção da indústria e dos decisores políticos como uma forma de ajudar a expandir a produção de medicamentos essenciais nos países de renda média, como o Brasil. Assim, nos próximos 10 anos, a PFC deverá ser a regra de ouro para a produção farmacêutica, especialmente no que se refere a produtos inovadores, biológicos e genéricos.

Mas alguns fabricantes, mesmo nos Estados Unidos, têm hesitado em adotar a PFC devido aos desafios econômicos, tais como os custos dos investimentos up front necessários e a falta de capacidade da força de trabalho associados às atividades iniciais de implantação dos processos de PFC. Se somam, ainda, as incertezas relacionadas aos processos de PFC, tais como a percepção de riscos regulatórios que poderiam trazer atrasos na comercialização, maior escrutínio fiscal e obstáculos pós-comercialização.

No entanto, uma recente auditoria da FDA comparando o PCF com os resultados regulatórios da fabricação em lote, demostrou que os fabricantes que enviaram pedidos de PFC lograram tempos relativamente menores para aprovação e comercialização, em comparação com pedidos de lote semelhantes, o que foi traduzido em benefícios estimados de antecipação de receita. Esta auditoria também não encontrou nenhuma barreira regulatória substancial para aplicações de PFC relacionadas a mudanças no processo de fabricação ou inspeções de pré-aprovação[4].

A questão de fundo é como podem ser superadas essas barreiras à adoção do PFC? Uma rápida análise dos argumentos mostra que as soluções se vinculam à aceleração do conhecimento científico e técnico, à disponibilidade de recursos para investimento e a geração de incentivos regulatórios adicionais. Por exemplo, instituições como a USP, nos Estados Unidos, tem criado programas de educação e treinamento para desenvolver a próxima geração de especialistas em PFC e estudam o campo da produção farmacêutica para desenvolver padrões que redefinam o que é qualidade e explorem onde há necessidade e oportunidade para desenvolver novas diretrizes, melhores práticas e padrões de qualidade. Trabalham com parceiros para certificar e validar os processos de fabricação relacionados.

Nos Estados Unidos, a administração Joe Biden tem apoiado o aumento do financiamento do PFC para ajudar a reforçar a cadeia de abastecimento farmacêutico, e as propostas legislativas bipartidárias na Câmara e no Senado incluíram disposições para acelerar a revisão das antigas e o desenvolvimento de novas abordagens na fabricação de medicamentos compatíveis com a PFC, que incluem a criação de centros de excelência em tecnologias de PFC para facilitar a colaboração na partilha de conhecimentos e na formação da força de trabalho.

Neste particular, a definição de novos padrões de qualidade é muito importante quando se trata de inovação e adoção de PFC, pois ajudam os fabricantes e reguladores farmacêuticos a garantir que os medicamentos são seguros, funcionam conforme pretendido e estão disponíveis quando necessário para apoiar a confiança do público, ajudando as partes interessadas a definir os requisitos para demonstrar a compreensão e a qualidade do processo, a fim de trazer mais produtos com qualidade garantida ao mercado de forma mais rápida e eficiente para melhorar a saúde global.

 

Processos de PFC e saúde baseada em valor

A produção farmacêutica baseada em métodos de PFC tem uma série de proximidades com os temas de saúde baseada em valor (value-based healthcare ou VBHC), especialmente com as técnicas que revolucionaram a produção e mensuração de custos sob os temas de VBHC, como é o caso do custeio baseado em atividades orientado ao tempo (time driven activity-based costs ou TDABC). Embora PFC e TDABC sejam dois conceitos distintos, eles estão relacionados no contexto da otimização dos processos de fabricação e da compreensão da estrutura de custos da produção farmacêutica.

O TDABC é um método de contabilidade de custos, desenvolvido no âmbito do VBHC, que ajuda as organizações a determinar o custo de várias atividades dentro de seus processos. Ele fornece uma análise detalhada dos custos associados a atividades específicas e permite uma compreensão mais precisa dos direcionadores de custos. Na fabricação farmacêutica, o TDABC pode ser usado para avaliar a estrutura de custos tanto dos processos de PFC, ajudando na identificação dos direcionadores de custos para cada atividade envolvida no processo de fabricação e fornecendo insights sobre como os custos mudam durante a transição da fabricação em lote para a fabricação contínua.

A PFC concentra-se na simplificação do processo de produção, reduzindo desperdícios e melhorando a eficiência. Ao utilizar o TDABC, os fabricantes farmacêuticos podem identificar atividades que consomem uma quantidade significativa de tempo e recursos. Essas informações podem ser usadas para otimizar o processo de fabricação e torná-lo mais econômico. O TDABC pode ajudar na avaliação do impacto das mudanças nos processos e na adoção da fabricação contínua nos custos gerais.

Compreender os custos associados à PFC é crucial para tomar decisões informadas sobre a adoção desta abordagem. O TDABC pode ajudar a comparar os custos da fabricação tradicional em lote com a fabricação contínua, levando em consideração vários elementos de custo. Esta análise pode orientar as empresas na determinação da viabilidade económica e dos benefícios da transição para a PFC.

Tanto a PFC quanto o TDABC são ferramentas para melhoria contínua na produção farmacêutica. O TDABC pode ser usado para monitorar e analisar a relação custo-benefício do processo de fabricação contínua ao longo do tempo. Isso permite que os fabricantes refinem continuamente seus processos, reduzam custos e melhorem a qualidade do produto.

Em resumo, embora a produção contínua e o TDABC sejam conceitos distintos, podem estar relacionados no sentido de que o TDABC fornece uma metodologia valiosa para avaliar a estrutura de custos dos processos de produção farmacêutica, incluindo tanto a produção tradicional em lotes como a produção contínua. Os insights do TDABC podem informar decisões sobre a adoção da fabricação contínua e a otimização do processo de fabricação para obter economia de custos e melhorias de eficiência.

Inteligência artificial e processos complementares ao PFC

O uso da inteligência artificial (IA) e machine learning (ML) complementa os métodos de PFC gerando ferramentas para otimização de processos (controle de qualidade e detecção de desvios), qualidade e segurança, manutenção preditiva de estoques e de peças sobressalentes e rastreamento e controle de estoques. Algoritmos orientados por IA podem analisar vastos conjuntos de dados e identificar padrões difíceis de perceber, melhorando a eficiência e reduzindo custos[5].

A indústria farmacêutica gera vastas bases de dados durante a pesquisa, desenvolvimento e fabricação de seus produtos. O uso de big data e analytics permite gerar insights valiosos desses dados, para a tomada de decisões e a eficiência da produção, desde a descoberta de novos medicamentos, até o desenvolvimento clínico, gerenciamento da cadeia de suprimentos e farmacovigilância[6]. Permite ainda a modelagem de dados e a criação de algoritmos para o desenvolvimento de novas moléculas, melhorando a eficácia e a segurança dos produtos.

A automação robótica de processos foi integrada à fabricação de medicamentos para aumentar a velocidade e a precisão em vários aspectos do processo de produção. Os robôs são utilizados para tarefas como distribuição, etiquetagem e embalagem, reduzindo o potencial de erro humano e aumentando a eficiência da produção[7].

A tecnologia de impressão 3D fez avanços significativos no setor farmacêutico, sendo utilizada para formulações personalizadas de medicamentos, fabricação de dispositivos médicos e sistemas de administração de medicamentos. Ao permitir a produção de estruturas complexas de medicamentos com precisão, a impressão 3D tem o potencial de revolucionar a fabricação e personalização de medicamentos[8].

A Internet das Coisas (IoT) chegou à indústria farmacêutica, conectando máquinas, sensores e dispositivos para melhorar os processos de fabricação. A fabricação inteligente depende de dados e análises em tempo real para monitorar e controlar a produção, garantindo a consistência e a qualidade do produto[9].

O uso de blockchain na produção farmacêutica tem sido responsável por aumentar a rastreabilidade de cada etapa da cadeia de suprimentos farmacêutica, desde a fabricação de matérias-primas até a entrega ao paciente, ajudando a evitar produtos falsificados, a melhorar a autenticidade dos medicamentos e a garantir a segurança do paciente. Permite também a assinatura de contratos inteligentes para automatizar processos de aquisição de matérias-primas, distribuição de produtos e o monitoramento de prazos de validade, melhorando a eficiência e reduzindo erros humanos. O blockchain também pode ser usado para proteger e compartilhar com segurança dados clínicos de pacientes, garantindo privacidade e precisão nas informações o que será extremamente útil nos processos de fabricação de medicamentos individualizados.

A realidade virtual na produção farmacêutica é uma crescente iniciativa utilizada no treinamento e capacitação de pessoal e colaboração remota, design de fábricas e seus layouts, simulação de processos de fabricação, tornando mais fácil identificar áreas de melhoria, otimizar a eficiência e reduzir desperdícios.

 

A indústria farmacêutica brasileira está preparada para adotar o PFC?

Esta é uma questão difícil de ser respondida sem uma avaliação em profundidade das empresas do setor. No entanto, tanto para melhorar a oferta do mercado interno como para competir globalmente, a indústria farmacêutica brasileira precisará adotar inovações que melhorem a eficiência, a qualidade e a capacidade de produção, assim como aumentem a resiliência da cadeia de suprimentos farmacêuticos. Inovações, como a PFC podem melhorar essa resiliência de forma a contribuir para evitar as restrições que o país sofreu durante a pandemia da COVID-19.

Os processos de PFC começam a ganhar atenção da indústria farmacêutica no Brasil nos últimos anos, mas sua adoção não foi, até agora, tão difundida como nos países de renda alta. No entanto, tem havido esforços para promover o uso da PFC e melhorar a regulação de modo a facilitar a sua implementação. Atualmente, instituições acadêmicas e organizações de pesquisa brasileiras têm explorado métodos de fabricação contínua de produtos farmacêuticos. Eles conduzem estudos e ensaios para avaliar a viabilidade dos métodos de PFC e os investimentos necessários para sua implementação. Profissionais e especialistas da indústria farmacêutica brasileira têm participado de conferências e fóruns internacionais para aprender com experiências de países onde a fabricação contínua está mais consolidada.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) – órgão que regula a produção brasileira de produtos para saúde - tem anunciado seus esforços para alinhar suas regulamentações com as diretrizes internacionais, incluindo aquelas relacionadas à fabricação contínua. Isso é importante para incentivar as empresas farmacêuticas no Brasil a adotar esses métodos avançados de fabricação.

Além disso, alguns fabricantes farmacêuticos no Brasil têm demonstrado interesse em implementar processos de PFC, desenvolvendo projetos-piloto para buscar apoio e colaboração de autoridades reguladoras e instituições de investigação que permitam facilitar a adoção desta abordagem.

No entanto, a adoção de processos de PFC na indústria farmacêutica no Brasil ainda está em estágio muito inicial. Embora algumas empresas farmacêuticas em todo o mundo tenham começado a implementar processos de fabricação contínua, isso não foi ainda difundido no Brasil.

Em geral, a indústria farmacêutica no Brasil está ciente da importância dos processos de PFC, dos avanços na inteligência artificial e das tecnologias de informação na inovação e eficiência da fabricação de medicamentos. No entanto, a implementação bem-sucedida dessas inovações dependerá de diversos fatores, incluindo apoio regulatório, recursos financeiros, capacitação da equipe e parcerias estratégicas. A adoção de tecnologias como a PFC e a IA pode trazer benefícios significativos em termos de eficiência, qualidade e competitividade, mas requer planejamento e comprometimento a longo prazo. Portanto, o foco do CIS na indústria farmacêutica brasileira deveria estar voltado para a preparação gradual para operar com base nessas inovações.



[1] As 20 maiores empresas farmacêuticas brasileiras em faturamento seriam, nesta ordem, Eurofarma, EMS Pharma, Aché, Sanofi, Neo Química, Novo Nordisk, Mantecorp Farmasa, Cimed, Libbs, Novartis, Biolab Sanus Farma, Medley, FQM Grupo, União Química, Bayer Pharma, Hypera Pharma, Nestle, Astrazeneca Brasil, GSK Farma, Boehringer Ingelheim.     

[2] Dados sobre o mercado de genéricos no Brasil podem ser vistos na página da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares – Pró-genéricos. https://progenericos.org.br/genericos/mercado/#:~:text=Os%20gen%C3%A9ricos%20respondem%20por%2036%2C70%25%20das%20vendas,em%20unidades%20no%20conjunto%20do%20mercado%20farmac%C3%AAutico%20brasileiro.

[3] De acordo com os dados do Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos, 91% das prescrições farmacêuticas naquele país são feitas através do uso de medicamentos genéricos.

[4] Ver as guias para a implantação de PFC produzidas pela United States Pharmacopea (USP), link: https://www.usp.org/supply-chain/pharmaceutical-continuous-manufacturing-usp-technical-guide

[5] Em 2019, a Insilico Medicine demonstrou o poder da IA ao criar uma molécula direcionada a uma proteína relacionada à fibrose em apenas 46 dias. Desde então, eles alcançaram os ensaios clínicos de Fase II para o INS018_055, um medicamento antifibrótico descoberto pela IA, após o sucesso da Fase 0 e da Fase I. Este marco destaca o potencial da IA para acelerar o desenvolvimento de medicamentos, abordando necessidades médicas não atendidas em tempo recorde.

[6] Empresas como a Accenture e a Biogen tem utilizado computação quântica para agilizar o processo de descoberta de medicamentos. Eles adotaram um algoritmo de comparação molecular estrutural com a ajuda do 1QBit, demonstrando como a computação quântica pode potenciar a descoberta de medicamentos na indústria farmacêutica, permitindo a comparação de moléculas maiores e levando, em última análise, a avanços e curas potenciais para várias doenças.

[7] Em 2020, a Eli Lilly e a Strateos, Inc. lançaram o laboratório Lilly Life Sciences Studio em San Diego (California) - um laboratório robótico de última geração projetado para acelerar a descoberta de medicamentos. Este laboratório integra vários aspectos da descoberta de medicamentos, como design, síntese, purificação e análise, em uma plataforma totalmente automatizada, acessível através da plataforma baseada em nuvem da STRATEOS. Os pesquisadores podem controlar experimentos remotamente, promovendo experimentos reproduzíveis em tempo real, e a parceria visa ampliar o acesso à tecnologia do laboratório.

[8] Em 2015, a Aprecia Pharmaceuticals foi pioneira no primeiro medicamento impresso em 3D aprovado pela FDA, o SPRITAM, projetado para dissolução rápida em água, facilitando a ingestão por pacientes com dificuldades de deglutição. SPRITAM destina-se ao tratamento de crises parciais, crises mioclônicas e crises tônico-clônicas generalizadas primárias. Essa conquista resulta da inovadora tecnologia de impressão 3D da Aprecia, conhecida como Tecnologia ZipDose, que permite que o comprimido se desintegre na boca com o mínimo de água, destacando o potencial da impressão 3D para melhorar a fabricação farmacêutica e a adesão do paciente.

 [9] Por exemplo, muitas empresas farmacêuticas, como Pfizer, AstraZeneca, GSK, Novartis, Roche, Johnson & Jonhson, Merck, Sanofi, Eli Lilly e AbbVie, incorporaram dispositivos IoT e análise de dados em tempo real nas suas instalações de produção para garantir resultados precisos. controle sobre o processo de produção, melhore a qualidade do produto e agilize as operações.

terça-feira, outubro 31, 2023

A Ajuda Humanitária e a Saúde na Palestina

Ano 18, No. 135, Outubro de 2023

Claudio Lottenberg[1] e André Medici[2]


Os sistemas de saúde de Israel e da Palestina

O sistema de saúde de Israel é conhecido por sua abrangência e alta qualidade em termos de serviços médicos. Desde 1948, Israel vem construindo um robusto e eficiente sistema público de saúde que, de acordo com o índice Bloomberg de 2020, levou o país a estar entre os 10 mais saudáveis do mundo. É um sistema de saúde onde o financiamento e entrega de serviços combina ações conjuntas do setor público e do setor privado.

Israel oferece cobertura universal de saúde para todos os seus cidadãos, garantindo o acesso aos serviços de saúde essenciais. Essas premissas estão estabelecidas na Lei Nacional de Seguro de Saúde de 1995. As principais instituições responsáveis pelo sistema de saúde de Israel são os Ministérios da Saúde e da Fazenda, as quatro Kupot Cholim (Clalit, Maccabi, Meuhedet e Leumit) que são seguradoras públicas de saúde, e o Instituto Nacional de Seguridade (Bituach Leumi), coordenador do sistema e responsável pelo recolhimento das contribuições que financiam as Kupot Cholim.

Além de fornecerem o seguro saúde, as Kupot Cholim desempenham um papel direto na prestação de serviços médicos, empregando médicos e administrando clínicas. Durante a pandemia, foram responsáveis por coordenar a campanha de vacinação contra a Covid 19. O governo financia os serviços de saúde para certas populações que não tem recursos para contribuir, como crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais. Já o setor privado desempenha um papel significativo na prestação de serviços de saúde, com muitos israelenses optando por planos de saúde privados.

Israel é conhecido por oferecer serviços de saúde de alta qualidade. O país tem uma das maiores expectativas de vida no mundo e possui hospitais super bem equipados, tecnologia médica de última geração e equipes médicas altamente qualificadas. Além disso, Israel é um líder em pesquisa médica e inovação, o que contribui para a qualidade dos cuidados de saúde oferecidos.

O sistema de saúde de Israel, de origem socialista, se esforça para proporcionar igualdade no acesso aos serviços de saúde. A cobertura universal é um componente-chave para a equidade, garantindo que todos os cidadãos tenham acesso a cuidados médicos essenciais, independentemente de sua situação econômica. Os problemas ainda existentes, como tempos de espera para alguns tipos de tratamento e questões de acessibilidade em áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos, bem como o aumento dos custos dos cuidados de saúde podem trazer desafios orçamentários que são enfrentados cotidianamente pelo governo.

Já o sistema de saúde dos territórios palestinos[3] sofre graves restrições de funcionamento, especialmente desde 2006, quando o Hamas foi eleito para governar a Faixa de Gaza, e nunca mais realizou eleições, perpetuando-se como uma ditadura até o presente e utilizando todo seu esforço para sua missão, inscrita em sua carta de fundação, de destruir o Estado de Israel e eliminar todos os judeus. Desde então, o Hamas tem intensificado ataques terroristas a Israel, obrigando o país a defender-se e, posteriormente, a estabelecer um bloqueio territorial da Faixa de Gaza para minimizar os efeitos de novos ataques terroristas que são constantes por parte do Hamas.

Embora não haja transparência de como a Palestina administra seus fundos, estima-se que a ajuda externa à Palestina represente entre 50% e 80% do PIB[4] territorial, dos quais a maioria dos recursos é consumida pela Faixa de Gaza e desviada para a fornalha de gastos de guerra que alimenta os ataques terroristas a Israel. A ajuda, inclusive aquela dada pelas Nações Unidas e que deveria ser utilizada para fins humanitários, ou seja, financiar os sistemas de saúde, educação e políticas de assistência, tem sido desviada ilegalmente por parte do Hamas para fins bélicos e de treinamento de seus terroristas, bem como para enriquecer seus líderes, que em geral vivem fora da região e acumulam fortunas calculadas em bilhões de dólares, o que fecha o circuito autoritarismo-corrupção-violência, comum a este tipo de grupos radicais e a governos ditatoriais.

Além de desfinanciar o sistema de saúde de Gaza das doações internacionais destinadas para este fim, o Hamas acaba utilizando os hospitais da Faixa de Gaza para fins militares, trazendo efeitos negativos no acesso aos cuidados médicos e à saúde pública. Quando os hospitais são utilizados para operações militares, ou como centros de comando para operações terroristas, a função principal de prestação de cuidados médicos à população civil fica comprometida. Muitos pacientes deixam de receber atenção médica oportuna ou apropriada, o que pode levar a consequências fatais. Por outro lado, os pacientes que procuram tratamento nestes hospitais também passam a correr maiores riscos devido à sua proximidade com potenciais alvos militares. O Hamas utiliza a população palestina – principalmente mulheres e crianças – como escudos humanos para buscar solidariedade internacional a eventuais ataques que venham ocorrer, e os hospitais e escolas, onde estão os quartéis generais do Hamas, são os locais prediletos para que eventuais desastres logrem obter emocionalmente a solidariedade internacional.

A utilização de hospitais para fins militares coloca em perigo os pacientes, os médicos, os demais profissionais de saúde e as instalações médicas. Com isso, tem-se reduzido, ao longo do tempo, a capacidade global do sistema de saúde da região de Gaza. Esta redução compromete a capacidade de resposta a emergências médicas, tanto nos momentos de conflito como também durante necessidades rotineiras de cuidados de saúde, dado que traz danos físicos às infraestruturas de saúde, incluindo hospitais e clínicas. Esses danos podem resultar em interrupções de longo prazo no fornecimento dos serviços de saúde.

Ao mesmo tempo, esse processo mina a confiança que a população civil deveria ter nas instalações de saúde. As pessoas podem ficar relutantes em procurar cuidados médicos em hospitais que são quarteis de operação clandestina de atividades militares. Embora a utilização de hospitais de atendimento aos civis para fins militares seja proibida pelo direito internacional, o Hamas despreza a obediência a qualquer convenção ou proibição, dado que seu único objetivo é eliminar Israel e o povo judeu.

Por este motivo, a população palestina necessitada de serviços de saúde, em tempo de relativa paz, tem que contar com os serviços médicos oferecidos no território israelense, ou montada por Israel na área da Cisjordânia, para ser atendida. De acordo com a OMS, uma média mensal de 10 mil referências de pacientes da Faixa de Gaza, West Bank ou East Jerusalém foi direcionada para hospitais e serviços de saúde em Israel ou no Egito no ano de 2021. Muitas vezes ocorrem atrasos no atendimento a estas referências por parte de Israel, em função dos requisitos de segurança que tem que ser aplicados para evitar a passagem de terroristas para os territórios egípcio ou israelense. Além disso, o abastecimento de água, energia elétrica e alimentos na Palestina e na Faixa de Gaza tem sido feito com a ajuda israelense, o que demonstra a solidariedade histórica de Israel à população palestina, mesmo recebendo constantes ataques do Hamas.

A deterioração do sistema de saúde da Palestina, em que pese toda a ajuda externa recebida, decorre do domínio do Hamas sobre o sistema de saúde, do desvio dos recursos da saúde para as operações terroristas e do uso da população civil – especialmente mulheres e crianças - como reféns de uma guerrilha unilateral de longo prazo sem propósito e que, certamente, a maioria dos palestinos detesta. Isto faz com que o Hamas seja o principal responsável pela má qualidade do atendimento do sistema de saúde e das vidas palestinas perdidas. Por mais que a solidariedade internacional de grupos como a Cruz Vermelha e Médicos sem Fronteira, que realizam importantes trabalhos humanitários na saúde, seja relevante na Região, ela não consegue neutralizar o peso da influência negativa do Hamas no fracasso e deterioração do sistema de saúde palestino. Com pelo menos quinze anos de ditadura, a maioria da população palestina rejeita o Hamas e gostaria de se ver livre da sua dominação, mas essa maioria não tem meios para reagir ou para fugir, tendo que se submeter a espoliação diária de seus recursos e patrimônios e à utilização deturpada, para fins de guerrilha terrorista, das instalações e infraestrutura pública do território em que vivem.    

 

O contexto da guerra e o acesso à saúde

Os atos terroristas do Hamas ao invadir Israel de surpresa na noite de 7 de outubro de 2023 resultaram, até o momento, na morte de 1400 civis nas formas mais bárbaras possíveis, desde o assassinato de jovens num festival de música até a invasão de Kibutz e morte de famílias, decapitação de crianças, assassinato de mulheres grávidas e idosos e muitas outras atrocidades, além da captura e traslado de mais de 250 reféns civis para os tuneis e subterrâneos situados na Faixa de Gaza.

Apesar de sofrer um grande stress pela mobilização de recursos para atender vítimas, feridos e suas famílias, o sistema de saúde de Israel não entrou em colapso após os ataques terroristas do Hamas. Embora estes ataques tenham causado tensões e pressões adicionais sobre o sistema, devido ao tratamento de feridos e ao gerenciamento de emergências, Israel possui hospitais e instituições de saúde bem estabelecidas e robustas, com equipamentos médicos de alta qualidade e profissionais de saúde altamente treinados para lidar com emergências como esta. O sistema de saúde de Israel é projetado para enfrentar desafios desse tipo e continua a funcionar para atender às necessidades da população nessas circunstâncias, ainda que com mais dificuldades.

A resposta de Israel, através de ataques aéreos e da recente invasão terrestre para eliminar a ameaça do Hamas, procura evitar a mortalidade de civis, buscando concentrar-se em alvos militares do Hamas, e comunicar à população civil palestina, e especialmente às equipes dos hospitais e centros de saúde da região norte de Gaza, sobre necessidade de deslocar-se para o sul da Faixa de Gaza, jogando panfletos para a população e mobilizando o pessoal de saúde e as famílias para removerem, quando possível, os seus pacientes, doentes e feridos. Isto porque os ataques aos terroristas do Hamas têm se concentrado e vão se intensificar na área ao norte de Gaza, onde estão os túneis e quarteis subterrâneos do Hamas, muitos deles por debaixo de hospitais e escolas. Mas apesar de ter-se evidência de deslocamento de cerca de 1,1 milhões de habitantes do norte para o sul da Faixa de Gaza[5], o próprio Hamas tem impedido um deslocamento maior, através de bloqueios ou do assassinato de palestinos que tenham intenção de se deslocar, como forma de tentar manter sua estratégia de usar população civil indefesa como escudo humano contra os eventuais contra-ataques de Israel. Por estes motivos, a resposta israelense já trouxe, até o momento, a morte de pelo menos 8 mil civis e terroristas na Faixa de Gaza.

O próprio Hamas tem destruído as instalações de saúde situadas na faixa de Gaza por erros no envio de foguetes para Israel que acabaram atingindo a área de estacionamento de um de seus hospitais (Al-Ahli-Arab), matando civis, profissionais de saúde e pacientes internados. Apesar de tentar colocar a culpa desta destruição nos ataques aéreos de Israel, a imprensa internacional divulgou as evidências que mostram que o bombardeamento ao Hospital, ainda que acidental, veio de Gaza e não de Israel, dado que o Hamas tem pouca precisão no uso de seus foguetes e divulga frequentemente notícias falsas na imprensa internacional com o objetivo de confundir a opinião pública e ganhá-la ao seu favor.

Mas com a intensificação da entrada terrestre das forças de Israel na Faixa de Gaza, e na medida em que hospitais e centros de saúde da região são passagens subterrâneas para os quarteis generais do Hamas, torna-se praticamente impossível evitar que os hospitais e centros de saúde ao norte da Faixa de Gaza venham a ser destruídos pelas forças de Israel como parte das promessas do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, de eliminar, de uma vez por todas, as ameaças que a existência do Hamas representa para a segurança da população israelense.

No contexto da guerra, várias situações, além do ferimento e eventual morte de civis, contribuem para a deterioração da saúde da população palestina, cabendo destacar: (a) o corte do fornecimento de energia, água, alimentos e suprimentos, afetando os hospitais situados na Faixa de Gaza, (b) os danos físicos e de infraestrutura aos hospitais e centros de saúde dessa região, (c) a interrupção das referências de pacientes graves da Faixa de Gaza para Israel ou para o Egito, que constituem, em tempos de paz, uma poderosa ferramenta de apoio ao sistema de saúde palestino; (d) os bloqueios à eventual ajuda humanitária internacional na faixa de Gaza pela interrupção das passagens fronteiriças, como a de Rafah, no Egito e de Erez e Keren Shalon, em Israel[6].

Essa situação tem levado as Nações Unidas (ONU) e a comunidade internacional a buscar esforços para garantir a ajuda humanitária à população palestina represada ao sul da faixa de Gaza, o que também tem sido difícil, dado que é necessário, tanto do ponto de vista de Israel como do Egito, realizar escrutínios rigorosos da entrada e saída de veículos, pessoas e mercadorias na Faixa de Gaza, não só para evitar a fuga de terroristas do Hamas escondidos entre a população refugiada[7], mas também a entrada de armas, combustíveis e suprimentos que possam ser aprisionados pelo Hamas para a manutenção de sua resistência às forças israelenses durante a guerra.

 

O que fazer com a ajuda humanitária?

As iniciativas das Nações Unidas, do Conselho de Segurança da ONU e mesmo de países membros isolados em buscar mediar o conflito, realizar tréguas temporárias ou criar corredores humanitários para a saída de refugiados ou entrada de ajuda internacional têm fracassado por não levarem em conta: (a) o direito de defesa de Israel aos ataques do Hamas, (b) a necessidade de um consenso tático-estratégico de que o Hamas é um grupo terrorista (e não um estado nacional democrático e representativo, como defendem os incautos) e, (c) de que a eliminação do Hamas será um bem público global, pois poderá garantir a paz futura numa região conflagrada por visões medievais de sociedade que ainda impedem os avanços democráticos do século XXI.

A eliminação do Hamas como pensamento, ideologia e milícia, impedirá, ainda, que a intolerância desses grupos terroristas venha a se conflagrar contra outras sociedades, seja por sua etnia, seja por suas crenças, valores ou religiões. Garantirá a libertação da população palestina de seu verdadeiro algoz – o Hamas - e a liberação de mulheres palestinas para a vida em sociedades que lhes criam oportunidades, com igualdade de gênero, e que tragam mais progresso econômico, social e felicidade. 

Ações humanitárias em saúde nesse momento são mais importantes do que nunca, desde que pautadas por precauções que evitem um recrudescimento da resistência e fortalecimento do Hamas. É com este espírito de precaução que, no curto prazo imediato, deveriam ser pautadas ações como a entrada de medicamentos, remédios, água e suprimentos de emergência, assim como pessoal de saúde e apoio para o trabalho com famílias, hospitais e centros comunitários. Só que estas estratégias deveriam ser planejadas sob a liderança e administração de Israel, ainda que com o apoio de doadores internacionais públicos ou privados e das Nações Unidas. Somente dessa forma se poderia planejar e estruturar áreas no território de Gaza já ocupado, protegidas dos ataques do Hamas e de seus apoiadores, para que a ajuda humanitária possa ser dada em segurança, mas sem interromper as estratégias de eliminação do terrorismo.

A médio e longo prazo, as Nações Unidas e o Conselho de Segurança da ONU devem, no lado prático da saúde, buscar consenso para garantir que todos os hospitais, centros e instituições de saúde – em qualquer parte do mundo[8] - sejam áreas desmilitarizadas, assegurando que o desvio no uso destas instituições para fins bélicos ou terroristas seja objeto imediato de denúncia e intervenção internacional. A atual arquitetura das decisões sobre governança global pode tornar difícil a aprovação deste consenso. Mas caso seja possível, isto evitaria que as ocupações de hospitais e instituições de saúde por milícias terroristas hoje encontradas, seja na Faixa de Gaza, seja em outras partes do mundo, venham a se repetir no futuro. Os argumentos demonstrados anteriormente mostram que a mortalidade em massa de palestinos e a falta de resposta do sistema de saúde de Gaza é responsabilidade direta e exclusiva do Hamas, e não de Israel.

Hospitais e Instituições de Saúde devem estar sempre preservados como áreas neutras e isentas de desvios de função, evitando, principalmente, que sejam utilizadas como escudos para o encobertamento de grupos terroristas. Nem mesmo o argumento da autodeterminação dos povos – hoje utilizado hipocritamente para defender ditaduras e o domínio inescrupuloso de tiranos sobre suas populações – deveria impedir a intervenção de forças internacionais em áreas ou países que desobedecerem a estas regras de preservação de hospitais e instituições de saúde.   

 



[1] Médico, Presidente do Conselho de Administração do Hospital Israelita Albert Einstein e Presidente da Confederação Israelita Brasileira.

[2] Economista de Saúde, Diretor da Iniciativa Universal Health Monitor.

[3] Que compreende dois territórios descontínuos, compostos pela Faixa de Gaza e pela Cisjordânia. Desde a guerra de Yon Kippur em 1973, Israel estabeleceu ao redor de 140 assentamentos em terras da Cisjordânia que supostamente pertenceriam aos palestinos, sendo dessa forma ocupadas ilegalmente pelas leis internacionais. Nestas áreas vivem atualmente cerca de 500 mil colonos e embora alguns desses assentamentos sejam autorizados outros foram construídos sem permissão do Governo de Israel. Muitas nações consideram que a expansão desses assentamentos é um obstáculo para a paz e futura coexistência de um Estado Palestino com o Estado de Israel.

[4] De acordo com o site The Global Economy (https://www.theglobaleconomy.com/Palestine/foreign_aid/) em 2021 a Palestina recebeu US$2,2 bilhões em ajuda externa para um PIB calculado em US$ 3,7 bilhões (West Bank e Gaza) o que daria uma relação de 59.5%.

[5] A Faixa de Gaza tem uma população estimada em 2,3 milhões de habitantes.

[6] Além de impedir ajuda humanitária e o tráfego de pessoas e mercadorias, o fechamento das passagens para a Faixa de Gaza representa o bloqueio para o trabalho cotidiano de 18 mil trabalhadores ocupados em Israel ou na Cisjordânia, com a perda de receita de cerca de US$ 2 milhões por dia para estas populações.

[7] O Hamas, por sua relação umbilical e apoio à Irmandade Muçulmana do Egito durante a Primavera Árabe, tornou-se uma dor de cabeça para o governo egípcio, o qual realizou uma contrarrevolução que derrubou este grupo rebelde em 2011. Além do mais, Egito e Israel mantêm fortes relações comerciais que são vitais para os dois países.


[8]
Com exceção de hospitais e centros de saúde militares, por suposto.