domingo, janeiro 31, 2021

Covid-19: Necessidades de Financiamento Global para Combater a Pandemia e Disponibilizar a Vacina em 2021

 

Ano 15, No. 113, Janeiro de 2021

André Cezar Medici

Introdução

Erradicar doenças transmissíveis tem um grande efeito positivo, não apenas em salvar vidas e garantir a sobrevivência, o potencial de saúde e a qualidade de vida da humanidade, mas também em aumentar a produtividade e fortalecer as economias, contribuindo para o crescimento econômico e o bem estar. Mas o progresso no combate a doenças transmissíveis é sempre desigual, dado que os países mais pobres não alcançam os recursos necessários para combater vetores, imunizar sua população e disseminar medidas de proteção coletiva entre as comunidades mais carentes.

Assim, investimentos para a erradicação de doenças transmissíveis nos países mais pobres têm sido parcialmente financiados através das iniciativas globais de organismos multilaterais ou fundações privadas, hoje tão criticadas pelos governos xenófobos de plantão, os quais instigam, através de seu populismo antiglobalizante, a negação de sua importância, mesmo em pandemias como aquelas que estamos vivendo como a trazida pelo Covid-19.

Em 2010, a Fundação Bill & Melinda Gates – uma das maiores instituições não lucrativas que destinam fundos para o benefício da saúde global – lançou uma iniciativa chamada A Década das Vacinas, na qual comprometeu fundos de US$ 10 bilhões em dez anos para subsidiar o acesso às vacinas infantis nos países mais pobres do mundo. Uma análise custo-efetividade desta iniciativa, publicada na revista Heath Affairs em 2011[i], demonstrou que os efeitos de longo prazo com a introdução e aumento das taxas de vacinação contra pneumonia pneumocócica em 72 países pobres, nos próximos 10 anos, salvaria 6,4 milhões de vidas, evitaria 426 milhões de casos de doença e economizaria US$ 6,2 bilhões em custos de tratamento e US$ 145 bilhões em perdas de produtividade.

Vejamos o caso das vacinas contra o Covid-19, por exemplo. Os investimentos necessários para desenvolve-las em tão curto espaço de tempo tem custos associados a pesquisa, testagem, validação, estocagem e comercialização. Os países mais pobres, em geral aqueles que mais necessitam de proteção contra os efeitos deletérios da pandemia, não participam de todas as etapas (na maioria dos casos em nenhuma delas) do ciclo de produção e distribuição de vacinas, e em geral tem que adquiri-las externamente e desembolsar recursos proporcionalmente vultuosos para obtê-las, comparados aos seus orçamentos públicos ou fundos disponíveis pelas suas famílias e instituições.

Estimativas apresentadas no Fórum Econômico de Davos (Suíça), que se realizou na semana de 25 a 29 de janeiro de 2021, evidenciam que ao evitar desastres econômicos e ajudar a acabar com a pandemia, a vacinação contra a Covid-19 iniciada em fins de 2020 nas 10 maiores economias do planeta poderá gerar benefícios equivalentes a US$ 466 bilhões até 2025.

Mas quais seriam os benefícios estimados para os países renda média e baixa?  Deixá-los sem acesso a vacinas em meio à pandemia causará danos econômicos significativos não somente para estes países, mas para a população de todas as economias, dado que eles passarão a ser locais privilegiados para a geração de novas variantes dos vírus conhecidos, colocando o mundo inteiro em risco, o que poderá custar a humanidade décadas de progresso econômico.

Desde que a pandemia se instalou, em março de 2020, iniciativas filantrópicas internacionais tem trabalhado intensamente, em colaboração com organismos globais, para direcionar suas ações para o apoio à capacitação dos países em gerenciar e solucionar a crise pandêmica e se preparar para evitar futuros desastres, a partir da institucionalização de boas práticas vivenciadas nos últimos meses.

O Acelerador de Ferramentas de Acesso ao Covid-19

Em abril de 2020, como resposta a emergência sanitária, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma iniciativa de grande importância na busca de soluções globais para acelerar o fim da pandemia do Covid-19. Esta iniciativa recebeu o nome de “Acelerador de Ferramentas de Acesso para o COVID-19[ii], ficando conhecido de forma simplificada como ACT Accelerator, como uma parceria entre várias instituições globais[iii].

O objetivo básico do ACT é acelerar o desenvolvimento equitativo e o acesso a diagnósticos, terapias e vacinas para o Covid-19, assim como melhores resultados na gestão pandêmica, através da capacitação dos sistemas de saúde em 92 países de renda média e baixa. A implantação global do ACT poderá reduzir a gravidade da pandemia, permitindo que os países saiam mais rapidamente da crise e reiniciem os processos de recuperação de suas economias e do comércio global, colocando a economia mundial de volta na rota do crescimento sustentável. O ACT prevê investimentos da ordem de US$38 bilhões, entre 2020 e 2021, distribuídos em 4 pilares de investimento: (i) Capacidade de Diagnóstico (US$6 bilhões), (ii) Terapia e Capacidade de Tratamento (US$7 bilhões), (iii) Vacinas (US$16 bilhões) e (iv) Sistemas de Saúde (US$9 bilhões). Os formuladores do ACT estimam que estes investimentos evitariam perdas no produto global de US$9 trilhões entre 2021 e 2025.  

As necessidades de investimento foram calculadas com base em diagnósticos que foram sintetizados, pela WHO, no gráfico abaixo:


Verificou-se que, em 2020, as condições de acesso às ferramentas para o enfrentamento do Covid-19 nos países de alta renda se encontravam mais adequadas quanto aos requisitos de prevenção (equipamentos de proteção pessoal-EPP), proteção (disponibilidade de vacinas) e diagnóstico (PCR e testes rápidos), embora ainda deficientes no que se refere ao tratamento. Nos países de renda média e baixa a situação se encontrava crítica em prevenção, tratamento e testes, e deficiente no que se refere ao acesso a vacinas, dado que alguns, com o apoio da ajuda internacional, já tinham a garantia de algum suporte para a provisão e distribuição.

Esse diagnóstico orientou as prioridades de investimento de US$38,1 bilhões do orçamento do ACT, para serem gastos entre setembro de 2020 e dezembro de 2021, mas até setembro de 2020 somente USS2,6 bilhões estavam comprometidos com recursos de doações. Em novembro de 2020, existia uma brecha de financiamento da ordem de US$28,5 bilhões para o ACT, distribuída de acordo com os 4 pilares do programa, como pode ser visto na tabela abaixo. Destes recursos, US$4,6 bilhões deveriam ser obtidos até março de 2021 para o financiamento urgente em áreas críticas de cada um dos pilares para aliviar os países na fase mais aguda da pandemia.

Necessidades preliminares de financiamento do Acelerador de Ferramentas de Acesso para o Covid-19 (ACT), de Novembro de 2020 até o final do Programa em Dezembro de 2021 (em US$ milhões)

 

Atividades

Valor (US$ M)

%

Pilar de Capacidade de Diagnóstico

5.625

19,6

Desenvolvimento, disponibilidade e acessibilidade para testes, incluindo o seu processamento digital.

346

1,2

Fortalecimento da capacidade laboratorial e treinamento de técnicos de laboratório

396

1,4

Pesquisas operacionais para modelos rápidos inovadores de realização de testes e inovação em políticas

122

0,4

Financiamento de 500 milhões de testes realizados em 12 meses nos países de renda média e baixa

4.461

16,6

Pilar de Terapias e Capacidade de Tratamento

6.150

21,7

Pesquisa e desenvolvimento em novos antivirais, anticorpos monoclonais e novas terapias

820

2,9

Licitações e aquisição de anticorpos monoclonais e outros medicamentos

1.420

5,0

Ampliação da capacidade de produção de anticorpos monoclonais e outros medicamentos

200

0,7

Estruturação dos mercados de produção de anticorpos monoclonais e outros medicamentos

310

1,1

Licitações para a contratação de estudos de avaliação clínica dos impactos de novas terapias.

3.400

17,9

Pilar de Vacinas (COVAX)

7.825

27,6

Suporte e financiamento a ensaios clínicos para acelerar o desenvolvimento e licenciamento de vacinas

820

2,9

Facilitar a solidariedade global para a fase 3 de ensaios clínicos

289

1,0

Apoio e supervisão às redes e necessidades de regulação

8

0,0

Investimento e reserva antecipada de doses dos produtores para os 92 países de renda média e baixa

5.233

18,4

Assegurar a equidade e justiça global, ética e orientações políticas na distribuição das vacinas

2

0,0

Preparação dos países e distribuição equitativa das vacinas nos países de baixa renda

1.434

5,1

Provisão de assistência técnica global, regional e ao nível dos países, identificar e contratar especialistas

39

0,2

Pilar de Sistemas de Saúde

9.098

32,0

Inovação, capacitação e gestão dos sistemas para a crise pandêmica

50

0,0

Inovação, capacitação e gestão na provisão de oxigênio (02)

50

0,0

Prevenção e controle de infecções nas unidades de saúde

102

0,0

Organização das cadeias de suprimentos

198

0,1

Custos de coordenação global

189

0,1

Apoio às respostas da comunidade

100

0,0

Apoio ao tratamento clínico

211

0,1

Licitações para a aquisição de equipamentos de proteção pessoal

6.598

23,3

Licitação para a aquisição de oxigênio (O2)

1.600

8,4

ESTIMATIVA DOS CUSTOS TOTAIS

28.698

100,0

Fonte: OMS (2020a).

 

O Pilar de Testes

As atividades implementadas pelo ACT em 2020 foram essenciais para apoiar o desenvolvimento de testes rápidos para o Covid-19 em todo o mundo, o que significa um grande progresso em relação aos antigos processos na geração de testes relacionados a outras doenças transmissíveis. Para fazer uma comparação, os testes necessários para a identificação de infectados pelo HIV-AIDS demoraram mais de 5 anos para serem desenvolvidos, estabilizados e disseminados, enquanto que os relacionados ao Covid-19 demoraram apenas meses. Especificamente, os testes rápidos antigênicos de qualidade que não necessitam de laboratórios para serem processados, foram desenvolvidos em apenas 8 meses com o apoio do ACT. Em março de 2021 estarão sendo produzidos, e cerca de 200 milhões destes já estão reservados para serem aplicados nos países de renda média e baixa, podendo alcançar até 500 milhões de testes neste mesmo ano, a serem distribuídos, com grande impacto para trabalhadores de saúde e populações vulneráveis nestes países. Os US$ 5,3 bilhões adicionais destinados deverão apoiar a capacidade de testagem para o Covid-19 nos países mais necessitados, ajudando-os no planejamento do controle pandêmico e, consequentemente, na criação de um estado de confiança para a reconstrução de suas economias. Os recursos incluem subsídios para os países que não tem fundos para licitar e comprar estes testes, auxiliando-os também na logística e preparação de sua capacidade de testagem.

O Pilar de Terapias e Capacidade de Tratamento

Este pilar se destina, prioritariamente a viabilizar a produção de anticorpos monoclonais para o tratamento da Covid-19, aumentar a produção e uso de dexametasona, ainda que mantendo a flexibilidade para incluir novos tratamentos que se mostrarem efetivos para os casos moderados e graves de Covid-19 ao longo de 2021. Ao longo de 2020, os investimentos iniciais nesse pilar foram exitosos na identificação da dexametasona como primeiro medicamento com resposta positiva no tratamento grave do Covid-19 (com uma redução estimada de 21% na mortalidade de casos graves, segundo estudo publicado no JAMA em 2020[iv]). Os investimentos de 2020 também ajudaram a identificar os anticorpos monoclonais como profilaxia no tratamento precoce de pacientes não hospitalizados, onde os resultados preliminares demonstraram uma redução de até 80% nas necessidades de hospitalização. Em 2021 (e provavelmente 2022) a meta seria dar acesso a 2,2 milhões de pacientes nos países de média e baixa renda que necessitam deste tipo de tratamentos. Os investimentos de US$6,2 bilhões vão apoiar pesquisas em antivirais, anticorpos monoclonais e novas terapias, bem como ampliar a produção e as vias de comercialização já existente destas terapias para aumentar a capacidade de licitação dos países de renda média e baixa na sua aquisição, fomentando também os processos de avaliação clínica para que se obtenha maior precisão nos resultados alcançados por estas terapias.

O Pilar de Vacinas (COVAX)

Até novembro de 2020, 94 países de renda alta e média-alta haviam assinado o compromisso de financiamento da iniciativa de GAVI, CEPI e WHO para a produção de vacinas para o Covid-19, chamada de COVAX, o qual é o pilar de vacinas financiadas pelo ACT. O COVAX se destina a acelerar o desenvolvimento e fabricação das vacinas para o Covid-19 e garantir sua distribuição justa e equitativa ao nível global e no interior de cada país, com a meta de alcançar 2 bilhões de doses de vacina distribuídas até o final de 2021. As necessidades de financiamento estimadas em US$8,5 bilhões neste pilar serão utilizadas em áreas críticas para o desenvolvimento do COVAX, tais como: (i) investimentos na transferência de tecnologias e ampliação da capacidade de produção ao nível global; (ii) garantia de que as doses serão distribuídas, priorizando os países mais pobres, através de pré-acordos de compra (advance purchase agreements), sendo este o maior componente de gasto, e; (iii) assistência técnica e para que os países mais pobres estejam logisticamente preparados para a disposição, estocagem e distribuição equitativa das vacinas adquiridas através dos instrumentos do COVAX. Na medida em que cada farmacêutica, individualmente, não terá a capacidade de produzir esta quantidade de doses, será necessário financiar o maior número possível de alternativas desde que os ensaios clínicos de fase 3 estejam concluídos, indicando resultados satisfatórios sobre a eficácia das vacinas. Assim, parte destes recursos poderá ser dedicada a conclusão destes ensaios clínicos.

Pilar dos sistemas de saúde

A maioria dos países de renda média e baixa não conta com sistemas de saúde funcionalmente capacitados para gerenciar, no curto prazo, o esforço necessário para reduzir os riscos pandêmicos associados ao Covid-19. Com base nestas evidências, boa parte dos US$9,1 bilhões de recursos deste pilar busca identificar as debilidades dos sistemas de saúde destes países e realizar esforços para fortalece-las através da provisão de equipamentos de proteção pessoal (EPP) e provisão de insumos como oxigênio para proteger os profissionais de saúde e garantir que os sistemas de sustentação da vida nos hospitais estejam garantidos para o sucesso das estratégias de tratamento. Mas para que estes sistemas se sustentem, não apenas os insumos mencionados serão necessários, mas também estratégias de capacitação de profissionais de saúde na gestão destes insumos, no gerenciamento da segurança aos pacientes nas unidades de saúde para a utilização adequada das funcionalidades existentes para tais finalidades.

Como financiar a brecha de recursos para o ACT?

De acordo com um informe produzido pela OMS em dezembro de 2020[v], 80% da brecha de recursos do ACT para 2021 serão destinados a licitações nas quatro áreas do programa (US$22,6 bilhões) abrangendo bens e serviços como vacinas, equipamentos de proteção pessoal, testes, oxigênio, medicamentos, como anticorpos monoclonais, e outros. Dos recursos destinados a licitações, cerca de US$4,1 bilhões deverão ser gastos no primeiro trimestre de 2021. Mas existem grandes dúvidas sobre como esses recursos serão financiados, dada a dimensão da brecha de recursos para o financiamento do ACT.

É certo de que parte desses recursos seria financiada com os tradicionais fundos de assistência oficial ao desenvolvimento (oficial development assistance ou ODA)[vi], mas dada a atual crise econômica provocada pela pandemia, os recursos ODA disponíveis não terão tanta elasticidade para expandir e financiar os requerimentos dos fundos para ACT, sem que deixem de financiar outras atividades com as quais estes fundos já estão comprometidos. Durante a presente década, os recursos ODA para a saúde não tem crescido substancialmente. De acordo com o grupo de trabalho de financiamento do ACT, seria necessário que se colocasse pelo menos US$20,0 bilhões em 2021 para o financiamento das atividades do ACT, mas essa possibilidade é um tanto remota, dado que o que parece seguro até o momento é contar com US$3,0 bilhões de recursos ODA para essas atividades, o que representa, em média, o montante que os fundos ODA tem dedicado anualmente para atividades novas em saúde nas últimas duas décadas.

Eventualmente seria possível contar com recursos excepcionais de ODA, tomando em consideração que as atividades públicas dos governos soberanos dos países ricos, ao longo de 2021, ainda serão financiadas com estímulos fiscais para mitigar as necessidades de manter a demanda e combater a pandemia. Adicionar a estes estímulos fiscais alguma forma de rateio para o financiamento excepcional de recursos ODA para as atividades do ACT poderia ser uma possibilidade, mas haveria a necessidade de calcular quanto seria possível levantar através desses mecanismos no curto prazo.

Uma hipótese adicional seria contar com recursos de doações do setor privado, envolvendo não somente recursos de grandes corporações internacionais, mas também de instituições de filantropia. Nesse particular, as estimativas do grupo de financiamento do ACT chegam a valores próximos a US$1,5 bilhões.

Também se poderia contar, eventualmente, com recursos levantados através de títulos de dívida social, conhecidos na literatura recente como social impact bonds (SIB)[vii]. O uso de SIB, segundo o grupo de financiamento da ACT, dadas as circunstâncias da pandemia e a solidariedade de corporações e organizações financeiras internacionais em acelerar o fim da pandemia, poderia gerar recursos para o financiamento do ACT da ordem de US$3 bilhões em 2021, mas o desenho do mecanismo financeiro e a sua comercialização e sensibilização no mercado internacional poderia tomar algum tempo, o que dificultaria ter esses recursos para o financiamento de atividades mais imediatas.

Uma outra opção levantada pelo grupo de financiamento do ACT seria a de utilizar uma abordagem programática multifásica (MPA)[viii] com instituições como o Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial ou outros bancos de desenvolvimento, para a estruturação dos investimentos do ACT em distintas fases, com recursos delimitados para cobrir as necessidades de financiamento para o ACT nas primeiras fases em 2021. O Banco Mundial tem utilizado muito este tipo de financiamento para projetos de longo prazo nos países em desenvolvimento, dado que ela permite preparar as fases subsequentes como operações separadas, incentivando a incorporação das lições aprendidas nas fases anteriores às novas fases e garantindo que as operações permitam maior capacidade de resposta às mudanças circunstanciais. O uso de empréstimos MPA do Banco Mundial, poderia adicionar US$3 bilhões aos recursos do ACT para 2021 nas primeiras fases dos respectivos empréstimos aos diversos países, mas há que garantir que estes empréstimos sejam preparados, negociados e aprovados em fast-track, o que muitas vezes esbarra em situações difíceis, tais como os tempos dos organismos internacionais para a preparação de empréstimos e a morosidade dos congressos nacionais em aprovar empréstimos externos.

Outras alternativas estariam na utilização de mecanismos de crédito que garantam a liquidez no curto prazo e que tenham baixo impacto na dívida de longo prazo dos países já altamente endividados por conta da crise, tais como a emissão de direitos especiais de saque (SDR), uso de empréstimos buy downs[ix], operações de troca de dívida[x], e outras.

Dadas as circunstâncias atuais para a obtenção de recursos através destes mecanismos de crédito ou doações, o grupo de financiamento da ACT considera, numa visão realista, que será mais factível em 2021 financiar as atividades do ACT através dos recursos ODA existentes (US$3 bilhões), doações do setor privado (US$1,5 bilhões), SIBs (US$ 3,0 bilhões) e MPA do Banco Mundial (US$3,0 bilhões) o que garantiria US$10,5 bilhões, ou ainda 37% dos US$28,1 bilhões globais de necessidades de financiamento para o ACT do Covid-19.

O restante dos recursos não teria a possibilidade de contar com instrumentos de financiamento com o mesmo grau de factibilidade, mas poderiam eventualmente ser obtidos através de recursos excepcionais de ODA (US$12 bilhões), empréstimos de outros bancos multilaterais regionais, empréstimos buy downs envolvendo instituições filantrópicas, debt-swaps e outros mecanismos.

Estados Unidos volta a contribuir para o financiamento global do combate à pandemia

Em 22 de janeiro de 2021, o novo presidente norte-americano Joe Biden anunciou o retorno dos Estados Unidos ao financiamento da WHO, desmontando as iniciativas lideradas pelo Governo Trump em deixar de contribuir para o financiamento de iniciativas de saúde global, onde os recursos alocados pelo país representavam 20% do total de fundos disponíveis. Dessa forma, o novo presidente se comprometeu a colocar recursos para o financiamento da COVAX (Pilar de vacinas do ACT), o que é bem vindo em um momento crucial para o cumprimento das promessas de 2 bilhões de doses de vacina a um preço reduzido, beneficiando os países mais pobres do planeta.

Ainda não se sabe qual seria a contribuição dos Estados Unidos e, de acordo com informações do Fórum Econômico Mundial, até a semana passada, somente US$1,4 bilhões estavam garantidos para o financiamento do COVAX, o que representa apenas 18% das necessidades de financiamento estimadas para 2021. Os recursos a serem colocados pelos Estados Unidos poderiam complementar parcialmente este gap de financiamento, mas o valor a ser alocado depende, neste momento, da aprovação do pacote emergencial de US$1,9 trilhões submetido pelo Presidente Joe Biden ao congresso norte-americano.

 

Notas ao texto



[i] Stack, M.L, Ozawa, S., Bishai, D.M., Mirelman, A., Tam, Y. and others (2011) Estimated Economic Benefits During The ‘Decade of Vaccines’ Include Treatment Savings, Gains in Labor Productivity in HEALTH AFFAIRS VOL. 30, NO. 6: special number for the STRATEGIES FOR THE ‘DECADE OF VACCINES`.

 

[ii] Organização Mundial da Saúde - OMS (2020a), ACT Accelerator: Access to Covid-19 Tools. Urgent Priorities & Financing Requirements at 10 November 2020, Averting the deepening human & economic crisis due to COVID-19, Ed. WHO, Geneve, November, 2020.

 

[iii] O ACT, ainda que liderado pela OMS, é uma parceria, tanto no financiamento como na implementação, de várias instituições globais, onde se destacam The Vaccine Alliance (GAVI), The Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), Wellcome Trust (instituição filantrópica global destinada a melhorar a saúde de todos ajudando grandes ideias a se transformarem em realidade), FIND (instituição caritativa global dedicada a prover diagnósticos para todos através de soluções simples para as doenças que afetam os mais pobres); The Global Fund (instituição global, inicialmente dedicada ao financiamento de ações contra a malária, tuberculose e AIDS, hoje dedicada a doenças transmissíveis); Bill & Melinda Gates Foundation, Banco Mundial, e UNITAID, que é uma iniciativa global criada em 2006 para inovações na prevenção, diagnose e tratamento das principais doenças transmissíveis em países de renda média e baixa.

 

[iv] Sterne J.A.C., Murthy, S., Diaz, J.V., Slutsky, A.S., Villar, J. et al. (2020) Association between administration of systemic corticosteroids and mortality among critically ill patients with COVID-19: a meta-analysis. JAMA. 2020; 324:1330-1341. Doi: 10.1001/jama.2020.17023.

 

[v] Organização Mundial da Saúde - OMS (2020b), A Financing Framework for the 2021 ACT-A funding gap, 3rd Facilitation Council, December 14, 2020.

 

[vi] Os recursos etiquetados como ODA são aqueles que provêm dos tradicionais instrumentos de financiamento ao desenvolvimento de organismos internacionais, como os das Nações Unidas e suas agências, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Bancos Regionais de Desenvolvimento, além dos fundos bilaterais dos países ricos, através de instituições como a USAID, DFID e outras.

 

[vii] Um SIB é um contrato entre investidores e o setor público ou autoridade governante de um determinado país, pelo qual o governo realiza investimentos associados a resultados pactados em determinadas áreas sociais. O tomador dos recursos é o setor público e o reembolso e o retorno do investimento dependem da obtenção dos resultados sociais desejados. Se os objetivos não forem alcançados, os investidores não recebem nem o retorno nem reembolso do principal, mas o governo perde credibilidade no financiamento de outras partes de suas dívidas. Os SIB derivam seu nome do fato de que seus investidores são tipicamente aqueles que estão interessados não apenas no retorno financeiro de seus investimentos, mas também em seu impacto social. Operações como SIB tem aumentado nos últimos anos como forma dos investidores e as empresas expandirem sua responsabilidade social. Como em geral, envolvem a sociedade como “terceiro”, tem sido também uma forma de aumentar o envolvimento da comunidade e sua conscientização das questões sociais. A maioria dos SIB tem sido realizados em áreas sociais, ambientais e de governança.

 

[viii] Os Multiphase Programmatic Approach (MPA) são linhas de crédito que permitem aos países estruturem contratos longos para temas complexos, através de um conjunto de operações (ou fases) menores associadas a um determinado programa. O resultado da quebra de um único empréstimo em fases, leva os clientes estruturar as necessidades de financiamento, permitindo um uso mais eficiente dos recursos financeiros, tanto para o prestamista quanto para os clientes. Esse tipo de "abordagem adaptativa" também fortalece o potencial de aglomeração de distintas fontes de financiamento para apoiar os objetivos de desenvolvimento.

 

[ix] Buy Downs Loans são empréstimos, normalmente utilizados no setor saúde associados a organismos internacionais, entre uma instituição financeira, o país tomador de recursos e um doador internacional, onde o último estaria disposto a pagar a totalidade ou parte dos empréstimos fornecidos à instituição financeira, muitas vezes pagando apenas o valor do principal, ou pagando o valor dos juros.

 

[x] Operações de troca de dívida (debt-swap) são aquelas onde o credor compra a dívida bancária em dólar de um país com desconto e troca essa dívida com o banco central por moeda local que pode usar para adquirir capital local.

terça-feira, janeiro 19, 2021

Estados Unidos: Retomando o caminho da cobertura universal de saúde

 Ano 15, No. 112, Janeiro de 2021

André Cezar Medici

 

“The ultimate measure of a man is not where he stands in moments of comfort and convenience, but where he stands at times of challenge and controversy”

       Martin Luther King Jr.

 Em março de 2020 muitos já haviam prognosticado que Donald Trump não conseguiria um segundo mandato presidencial, dado seu fraco desempenho em dar resposta às necessidades do país. Desde o primeiro semestre do ano passado a população norte-americana se encontra devastada por uma pandemia que atingiu proporções dantescas pela falta de iniciativa e presença do governo em atuar, com comunicação adequada e políticas sanitárias de emergência, para evitar o pior.

E o pior aconteceu. Ao negar importância da pandemia e minimizar o impacto dos seus efeitos catastróficos na sociedade norte-americana, o presidente levou o país a um número desnecessário de mortes e a uma crise econômica de grandes proporções, com uma elevação brutal das taxas de desemprego. Os Estados Unidos – supostamente bem preparado para o enfrentamento de crises pandêmicas – foi o país mundialmente mais afetado pela pandemia do Covid-19, dada a atuação do presidente que se preocupou mais em suas estratégias para a reeleição, ao instigar a negação do risco pandêmico entre seus eleitores e entre os governos estaduais e locais, do que em enfrentar as reais causas da crise e tomar medidas para evitar o recrudescimento da pandemia e garantir espaço para a recuperação econômica.

A saída de Donald Trump reabre o caminho para a universalização de cobertura da saúde nos Estados Unidos que teve um grande impulso após a promulgação e implementação do Affordable Care Act (ACA) em 2010, também conhecido como Obamacare.  A política de saúde do governo Donald Trump trouxe um retrocesso nesse caminho rumo a cobertura universal, pois além de reduzir o número de pessoas cobertas, aumentou os custos da assistência médica para os norte-americanos, que foram intensificados com a negligência do governo em não evitar os agravos da maior pandemia dos últimos cem anos.

A pandemia já consumiu mais de 400 mil vidas no país, levando Donald Trump a ter que responder por mais mortes de norte-americanos do que a segunda guerra mundial, como resultado de suas declarações e comportamentos negacionistas em relação à gravidade da pandemia e contrárias ao distanciamento social necessário para moderar a propagação do vírus e evitar o crescimento do número de casos e mortes pela pandemia.

 Além disso, uma crise econômica de largas proporções se abateu sobre o país, com enormes custos fiscais a longo prazo e taxas de desemprego nunca experimentadas desde a grande depressão de 1929. O governo não desenvolveu uma estratégia adequada para sair da crise e comunicar a população sobre como enfrenta-la do ponto de vista da saúde e da economia. Pior ainda, deixou o país emocionalmente dividido entre os que querem se proteger e os que negam a existência ou a severidade da pandemia e seus efeitos.

Não atender às dificuldades da população e não agir em conformidade com o atual momento de desafios e controvérsia foram, certamente, os principais fatores que levaram Donald Trump a perder as eleições presidenciais de novembro de 2020, passando a ser o quarto presidente na história do país que fracassou em seu intento de ser eleito para um segundo mandato de quatro anos. Cabe ao novo presidente eleito em novembro de 2020 o grande esforço de tentar pacificar os ânimos, unificar o país, retirar a ideologia sobre as medidas necessárias para combater a pandemia e voltar ao caminho pragmático do crescimento econômico com base no uso ético do progresso da ciência e da inclusão social.

Para entender esse processo de construção do sistema de saúde norte-americano, suas idas e vindas e seu desempenho, o blog monitor de saúde oferece, neste nosso primeiro encontro de 2021, um presente para os leitores. O livro: O Desafio da Cobertura Universal de Saúde nos Estados Unidos: De Barack Obama a Joe Biden, cujo link se encontra ao final desta postagem

O capítulo 1 trata da complexidade do sistema. Por um lado, o país gasta muito mais recursos em saúde do que todos os países avançados, mas seus indicadores de saúde estão aquém dos relativos a outros países ricos. Mas por outro lado, o sistema de saúde é dinâmico, sendo o centro dos processos de inovação tecnológica e gerencial na área de saúde: desde o desenvolvimento de novos medicamentos e equipamentos médicos, até a disseminação de novas formas de gestão, com o uso crescente de tecnologia da informação, inspirando transformações em processos clínicos, formas de remuneração e mensuração dos desfechos clínicos e resultados. Com isso, os cidadãos norte-americanos aparentam maior satisfação com os resultados do sistema do que os de outros países ricos.

O capítulo 2 destaca o surgimento do mosaico institucional que caracteriza a complexidade do sistema de saúde norte-americano, desde o século XIX aos dias atuais, mostrando como as áreas de saúde pública e de assistência médica vão se configurando na construção de um país federalista, mas com esforços em definir prioridades nacionais e colaboração entre estados.

Os capítulos 3 e 4 são dedicados aos economistas de saúde, na medida em que fazem uma análise das fontes e usos dos recursos em saúde. O capítulo 3 busca analisar a evolução dos gastos em saúde nos últimos 20 anos e o capítulo 4 busca resgatar para aonde vão os recursos da saúde e sua eficiência alocativa por item de gastos. Um dos pontos de destaque é a elevada ineficiência do gasto em saúde nos Estados Unidos, entre 2012 e 2019, identificada em áreas como falhas no atendimento; falhas na coordenação do cuidado assistencial, excesso de tratamento ou baixo valor agregado ao tratamento; falhas no sistema de precificação, fraudes e alta complexidade dos processos administrativos.

O capítulo 5 é o primeiro de uma série de três capítulos históricos que buscam resgatar os últimos 80 anos das políticas e instituições de saúde nos Estados Unidos. Ele sintetiza a análise histórica do surgimento dos mecanismos de seguros privados de saúde e dos seguros públicos para idosos com mais de 65 anos, e para pessoas abaixo da linha de pobreza, crianças e adolescentes até os 18 anos de idade. O capítulo 6, na sequência do anterior, analisa os antecedentes, princípios básicos e o processo de implementação do ACA durante o Governo Barack Obama, criando bases sólidas para a universalização da cobertura de saúde, a partir da obrigatoriedade de que todos os cidadãos norte-americanos passem a ter um seguro de saúde. O capitulo 7 analisa as tentativas de Donald Trump para desmontar o ACA, primeiramente com o pacote de medidas aprovado em 2017 pelo Congresso que elimina a obrigatoriedade dos indivíduos em ter um plano de cobertura de saúde. Outras tentativas de Donald Trump são analisadas nesse contexto, entre elas, as de tentar desmontar os novos seguros oferecidos pelo Obamacare.  

O capítulo 8 retoma as análises de natureza mais quantitativa, avaliando as tendências de longo prazo no crescimento da cobertura de seguros de saúde da população norte-americana. Ficou evidente a importância do plano Obama na redução da percentagem de pessoas sem seguros de saúde nos Estados Unidos de 15,5% em 2010 para 8,8% em 2017. Mas as políticas implementadas por Donald Trump tiveram efeitos negativos em retomar o crescimento do número de pessoas sem seguros de saúde, que alcançou cerca de 9,2% em 2019.

O capitulo 9 analisa a relação entre o aumento da cobertura e os gastos com saúde, demonstrando, primeiramente, que houve um efeito positivo entre o aumento da cobertura e a redução dos gastos diretos das famílias com saúde desde a implantação do Obamacare. Com isso, reduziu também a probabilidade de as famílias norte-americanas caírem abaixo da linha de pobreza por incorrerem em gastos catastróficos em saúde. No entanto, o capítulo documenta que há uma tendência de longo prazo ao aumento do valor dos prêmios de seguros de saúde. Outra tendência negativa é a elevada concentração do mercado de seguros de saúde no país que impede a concorrência e que contribui, também, para um aumento do valor dos prêmios.

O capítulo 10 demonstra que a maior proporção de norte-americanos sem cobertura de saúde se concentra nas faixas de idade de 19 a 34 anos. Considerando o aspecto étnico-racial, verifica-se que hispânicos são os que tem menos cobertura de saúde. No que se refere ao estado civil, os que se encontram em situação mais precária por falta de cobertura de saúde são os separados e os solteiros que nunca casaram. Mas a maior falta de cobertura de saúde está entre aqueles que não são cidadãos norte-americanos (27% em 2019), comparados com os nativos no país (6,5%). A inequidade de cobertura entre todos estes grupos com menor cobertura e os demais aumentou entre 2017 e 2019 pelo desmonte do feito por Donald Trump, que atingiu duramente os mais pobres.

O Capitulo 11 analisa o impacto da crise pandêmica nas taxas de cobertura de seguros de saúde nos Estados Unidos, procurando avaliar as relações onde há efeitos cruzados. As reduções de beneficiários com seguros de saúde em 2020 estariam estimadas em 2,8 milhões de pessoas. A situação poderá melhorar com os efeitos da vacinação que se iniciou em fins de dezembro de 2020 e poderá trazer melhores níveis de emprego e renda, com reflexos positivos na cobertura de seguros de saúde em 2021.

O Capítulo 12, último deste livro, avalia as propostas de Joe Biden para retomar o caminho de volta à universalização da saúde nos Estados Unidos, interrompida por Donald Trump, embora suas prioridades são, neste momento, estabelecer uma comunicação mais efetiva com a nação para reduzir os riscos pandêmicos do Covid-19, garantir um processo expedito de imunização contra o vírus e tomar as medidas sanitárias para proteger a saúde, a renda e as condições de trabalho daqueles que perderam seu seguro saúde em função da pandemia. Uma vez reestabelecido o controle pandêmico e reduzida a mortalidade e o contágio, será possível, com a recuperação da economia, restabelecer uma agenda de saúde, que retome alguns dos projetos rejeitados durante o Governo Barack Obama

Algumas análises sobre as propostas do Governo de Joe Biden foram realizadas neste capítulo, buscando trazer alguns elementos de discussão para que o país possa resolver os principais problemas de alto custo, baixa eficiência, e inequidade na cobertura de saúde que fazem dos Estados Unidos um país que ainda hoje não atingiu a plenitude de saúde que sua população, com seu nível de renda média e desenvolvimento, efetivamente merece.

O Link para fazer o download do livro está abaixo:

(2) (PDF) O Desafio da Cobertura Universal de Saúde nos Estados Unidos: De Barack Obama a Joe Biden (researchgate.net)

 

Uma boa leitura para todos!