terça-feira, abril 18, 2023

Os Primeiros 100 dias do Terceiro Governo Lula na Área de Saúde

 Ano 18, No. 133, Abril de 2023


André Medici e Joaquim Cardoso

Porque os Primeiros 100 dias São Importantes na Área da Saúde?

A Grande Depressão da década de 1930 foi o cenário em que um presidente inaugurou o uso da expressão “primeiros 100 dias” para abordar o progresso inicial de seu governo. Tratava-se de Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, que em um discurso radiofônico em 1933, destacou como seu governo estava conduzindo o plano de combate à crise americana do século, prometido durante sua campanha política à presidência. Ele demonstrou apoio político ao cumprimento de suas promessas, aprovando nas sessões do Congresso projetos de lei essenciais ao longo dos primeiros 100 dias de seu governo. Entre eles, políticas monetárias keynesianas destinadas romper com o “padrão-ouro” de convertibilidade utilizado pelo país e a adoção de programas de alívio ao desemprego, através de obras públicas. Franklin Roosevelt aprovou 76 leis e emitiu 99 ordens executivas em seus primeiros 100 dias - recorde que ainda permanece na história americana[1].

A democracia exige dos governos demonstrações sólidas sobre como estão conduzindo seus deveres para cumprir as promessas de campanha política. Desde a iniciativa de Roosevelt, outros presidentes eleitos, não apenas nos Estados Unidos, mas em muitas democracias ocidentais, tentaram imitar esse sucesso usando seus primeiros 100 dias para vocalizar sobre o cumprimento de promessas de campanha num momento em que seus índices de aprovação normalmente são os mais altos.

Porém, como comprovar avanços nos primeiros 100 dias em setores específicos, como o da saúde? Este exercício deve começar antes do governo ser lançado, ou ainda durante a campanha. Para melhorar o desempenho do sistema de saúde, os formuladores de políticas devem ter, como ponto de partida, um diagnóstico situacional claro para entender quais são as lacunas e quais áreas requerem priorização e alocação de recursos. Isso pode ser alcançado por meio de monitoramento e avaliação regular dos sistemas de saúde, o que é essencial para contar, de forma sistemática, com dados e informações relevantes para a elaboração de diagnósticos.

Também requer ouvir e dialogar com as principais partes interessadas do setor de saúde, buscando entender suas perspectivas, estratégias e formas de colaboração. Ambos – avaliação dos sistemas de saúde e diálogo com as partes interessadas – são essenciais para determinar quais são os pontos fortes, pontos fracos, oportunidades e ameaças atuais para a implementação das ações de saúde a serem priorizadas em um novo governo.

A definição de metas do sistema de saúde ao longo da campanha política é um passo crítico para promover uma análise mais aprofundada do desempenho dos governos anteriores, pois fornece uma estrutura para avaliar os resultados e definir as principais metas de saúde, tais como melhorar os resultados assistenciais, priorizar as necessidades dos pacientes, promover a equidade, garantir o financiamento justo e aumentar a eficiência.

Ao avaliar o desempenho de cada componente do sistema de saúde e identificar áreas de melhoria, os formuladores de políticas poderão desenvolver estratégias para fortalecer o sistema e atingir as metas propostas. Isso ressalta a relevância em realizar avaliação e monitoramento, de forma contínua, para garantir que os esforços de fortalecimento do sistema de saúde alcançarão melhorias efetivas nos resultados de saúde.

O Papel da Avaliação de Desempenho do Sistema de Saúde nos Primeiros 100 días de Governo

 

Para ajudar os governos a fortalecer seus sistemas de saúde, é crucial realizar avaliações sólidas de desempenho dos sistemas de saúde que possam subsidiar as discussões sobre políticas, a tomada de decisões e o desenvolvimento e implementação de estratégias de saúde. Essas avaliações também desempenharão um papel cada vez mais importante na orientação das respostas governamentais e na solução sistemática de problemas para melhorar o desempenho das políticas de saúde.

Atualmente, existem ferramentas disponíveis para avaliar a capacidade e resposta das políticas sanitárias tendo em vista alcançar a cobertura universal de saúde, como é proposto há mais de 30 anos, mas até agora não alcançado, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro.

Em 2017, foi criado sob a liderança da Organização Mundial de Saúde (OMS), um Grupo de Trabalho Técnico para alcançar a Cobertura Universal de Saúde até 2030 (UHC2030-TWG), reunindo especialistas e discutindo soluções entre as diversas partes interessadas. O TWG procurou desenvolver e implementar uma metodologia para gerar avaliações eficazes do sistema de saúde que possam informar e orientar os formuladores de políticas em seus esforços para melhorar os resultados de saúde para suas populações.

Essa iniciativa resultou na criação do modelo Health System Performance Assessment (HSPA), que fornece uma representação conceitual de como as avaliações dos sistemas de saúde podem contribuir para a melhoria do desempenho dos sistemas de saúde visando a cobertura universal de saúde. O modelo HSPA preenche a lacuna existente entre a avaliação de sistemas de saúde e o desempenho do sistema de saúde, adotando uma abordagem em três frentes para lidar com os gargalos de fragmentação, financiamento e desempenho. Esta abordagem oferece novas oportunidades para analisar o desempenho dos sistemas de saúde de forma mais eficaz e coordenada, fornecendo uma base para uma ação mais coesa e eficiente.

Em geral, o modelo HSPA oferece uma maneira abrangente de avaliar o desempenho dos sistemas de saúde e encontrar nichos para sua melhoria, ajudando a organizar informações precisas para uma tomada de decisão mais eficaz e para o alcance de melhores resultados de saúde e maiores progressos em direção à cobertura universal de saúde.

A Figura 1 mostra o fluxo de relações entre as funções e subfunções, os objetivos intermediários e os objetivos finalísticos dos sistemas de saúde. O modelo é construído em torno de quatro funções críticas do sistema de saúde, necessárias para atingir as metas de universalização de cobertura: (1) governança, (2) financiamento, (3) geração de recursos e (4) entrega de serviços. A figura ilustra, também, quais são os principais vínculos estruturais e funcionais (linhas cheias) e de desempenho (linhas tracejadas) entre as funções e subfunções, assim como entre os objetivos intermediários e finais.



Figura 1 – O Modelo de Avaliação do Desempenho dos Sistemas de Saúde (HSPA) para a Cobertura Universal de Saúde


Fonte: UHC2030, link:  https://www.uhc2030.org/fileadmin/uploads/uhc2030/Documents/About_UHC2030/UHC2030_Working_Groups/2017_Health_Systems_Assess_Working_Group/HSPA_Framework_for_UHC.pdf

 

Os objetivos intermediários consistem na efetividade, segurança, acesso e bons resultados na experiência do paciente, com base na eficiência e na equidade. Tudo isso, num marco geral de garantia de qualidade na entrega de serviços. Já os objetivos finalísticos são a construção de um sistema centrado nas pessoas, buscando a melhoria do estado de saúde e a proteção financeira de todos, dentro de parâmetros globais de eficiência e equidade, não apenas na entrega de serviços, mas no funcionamento de todos os sistemas de saúde.

A Estrutura do modelo HSPA baseia-se na premissa de que qualquer exercício de avaliação deveria coletar informações sistemáticas para avaliar tanto as funções do sistema de saúde quanto o grau de alcance de suas metas de desempenho. Ela descreve a finalidade de cada função do sistema de saúde, as subfunções necessárias para cumprir essa finalidade e as áreas para avaliar o desempenho da função. Essa estrutura inovadora vincula conceitualmente as funções do sistema de saúde aos objetivos intermediários e finais do sistema de saúde. Ao usar essa abordagem, os formuladores de políticas podem encontrar e analisar melhor as causas potenciais ou o impacto de um bom ou mau desempenho nos resultados específicos dos sistemas de saúde.

Quais são as necessidades de reformas do sistema de saúde brasileiro?

 

Os principais problemas do sistema de saúde brasileiro são estruturais, mas poderiam ser enfrentados por meio de soluções técnicas reconhecidas e aprovadas internacionalmente. Organismos internacionais têm antevisto esses problemas e proposto soluções para a reforma do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro nas últimas décadas. O Banco Mundial, por exemplo, lançou em 2019 um documento propondo uma agenda de reforma do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro[2], baseada em quatro tipos de reforma:

(i) Reformas do lado da oferta: racionalização da prestação de serviços ambulatoriais e hospitalares, expansão da cobertura da atenção primária para toda a população, autonomia do prestador de serviços de saúde e melhoria da qualidade administrativa e eficiência por um modelo de gestão baseado em organizações sociais de saúde (OSS).

(ii) Reformas do lado da demanda:  uso de gatekeepers na atenção primária à saúde como forma de organizar o fluxo de pacientes, uso de guias clínicas e protocolos de saúde baseados em evidências; implementação de um pacote definido de benefícios para o SUS que possa ser expandido progressivamente com os avanços técnicos e capacidade de financiamento.

(iii) Reformas de Gestão: estabelecimento de redes integradas de atenção à saúde definidas segundo áreas geográficas e melhor coordenação e integração entre os setores público e privado dentro de cada uma das redes integradas. Integração entre o SUS e a saúde suplementar, como forma de racionalizar a cobertura e focalizar os recursos do SUS em suas maiores carências.

(iv) Reformas no Financiamento da Saúde: recursos suficientes para o alcance de metas pactadas de saúde, definição de fluxos de financiamento centrados nas necessidades dos doentes, eliminação de desperdícios e gastos não associados às metas definidas do sistema e utilização de sistemas de pagamento dos prestadores públicos e privados orientados por resultados e desempenho.

No entanto, dada a divisão política e ideológica e um forte conflito de interesses dentro do ambiente institucional do setor de saúde brasileiro, tem sido difícil conseguir que a maioria dessas reformas sejam decididas, planejadas e executadas sem haver um lento e demorado processo de negociação, muitas vezes com idas e vindas ao longo das mudanças de orientação de governo. Os maiores problemas estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS) no contexto das eleições presidenciais de 2022 são:

(a) acesso universal incompleto aos cuidados de saúde de qualidade. Altas desigualdades regionais agravadas por uma frágil cultura de promoção, prevenção e atenção primária, que deveria ser fortalecida e implementada como espinha dorsal do sistema, a fim de evitar o ainda prevalente modelo hospitalocêntrico. Essa situação foi agravada pela pandemia, onde houve reduções significativas no acesso aos atendimentos ambulatoriais e hospitalares do SUS ao longo de 2020-2022;


(b)  capacidade insuficiente de preparação para emergências sanitárias, conforme demonstrado ao longo da pandemia de Covid-19, e a necessidade de revisar as diretrizes atuais de preparação para pandemias (incluindo aquelas relacionadas à disponibilidade de insumos médicos, equipamentos de proteção individual, vacinas e medicamentos) e adotar, em futuras pandemias, soluções rápidas e seguras que minimizem os efeitos negativos que podem prejudicar o fluxo regular de funcionamento da economia e da sociedade;

 

(c)   escassez de redes de saúde estruturadas para organizar o fluxo de cuidado e integrar os níveis de atenção (primário, secundário, terciário), estabelecendo portas definidas de entrada no sistema, referências e contrarreferências de serviços e processos de cuidado contínuo entre todos os níveis e especialidades, centrados nas necessidades dos pacientes e não apenas de acordo com a conveniência dos serviços;

 

(d)    falta de financiamento público em níveis adequados para o SUS, agravada a partir a crise de econômica de 2015, e associada à ineficiência do gasto público com políticas de saúde. Segundo pesquisa do Banco Mundial, a ineficiência do financiamento do SUS tem resultado no desperdício anual de 0,3% do PIB em recursos públicos;

 

(e)    falta de ferramentas para transformar informações abundantes hoje disponíveis nos sistemas públicos e privados de saúde em métricas, indicadores e análises para oferecer decisões tecnicamente precisas sobre políticas, metas de resultado, alocação de recursos e avaliação do alcance do sistema;

 

(f)      falta de vontade política para melhorar os mecanismos de formação profissional, contratação, treinamento e remuneração dos profissionais de saúde, com vistas a criar um compromisso na avaliação dos resultados e na definição de objetivos e metas com qualidade, diligência e eficiência;

 

(g)    falta de uma articulação sólida, flexível e fluida da oferta de serviços públicos e privados e entre o SUS e a saúde suplementar, para maximizar a eficiência e evitar o desperdício de recursos públicos e privados no setor, usando toda a estrutura de saúde disponível em cada área geográfica e evitando a construção de infraestrutura desnecessária;

 

(h)    estabelecimento de uma definição operacional do conceito constitucional de integralidade da saúde para evitar o desperdício de recursos públicos com judicialização desnecessária contra o SUS e contra a saúde suplementar.

O que Lula Prometeu para a Saúde em sua Campanha?

 

Ao longo da campanha política de Luiz Ignacio Lula da Silva para 2022, seu programa denominado Coalizão Brasil Esperança – um documento de 19 páginas – dedicou apenas dois parágrafos para tratar de suas promessas ao SUS e ao setor saúde, como pode ser visto abaixo:

A saúde, o direito à vida e o Sistema Único de Saúde (SUS) têm sido tratados com descaso pelo atual governo. Faltam investimentos, ações preventivas, profissionais de saúde, consultas, exames e medicamentos. É urgente dar condições ao SUS para retomar o atendimento às demandas que foram represadas durante a pandemia, atender as pessoas com sequelas da covid-19 e retomar o reconhecido programa nacional de vacinação. Não fossem o SUS e os corajosos trabalhadores e trabalhadoras da saúde, a irresponsabilidade do atual governo na pandemia teria custado ainda mais vidas.

 

Nos governos Lula e Dilma, a saúde foi tratada como uma política pública central, como um direito de todos os brasileiros e brasileiras e como um investimento estratégico para um Brasil soberano. Reafirmamos o nosso compromisso com o fortalecimento do SUS público e universal, o aprimoramento da sua gestão, a valorização e formação de profissionais de saúde, a retomada de políticas como o Mais Médicos e o Farmácia Popular, bem como a reconstrução e fomento ao Complexo Econômico e Industrial da Saúde.

 

Em comparação com outras áreas da campanha de Lula, a saúde foi um dos setores menos expressivos de todo o Programa Brasil Esperança[3]. Nenhuma doença específica ou desigualdade social foi apontada como alvo a ser combatido. O primeiro desses dois parágrafos destacou a situação frágil do SUS diante da pandemia de Covid-19, mas o Programa não mencionou números ou metas quantitativas para reduzir os altos níveis de carga de doenças que atingem os pobres. As iniciativas de saúde contempladas no Programa a serem implementadas após as eleições foram: (i) atendimento à demanda de saúde represada durante a pandemia de Covid-19; (ii) assistência a pessoas com sequelas de Covid-19; (iii) a retomada do reconhecido programa nacional de imunizações, (iv) a volta do Programa Mais Médicos (v) a volta da Iniciativa Farmácia Popular e (vi) a promoção do complexo econômico e industrial da saúde. Algumas dessas iniciativas foram de alguma forma implementadas durante os últimos governos Lula e Dilma em cores fortes ou suaves e merecem ser detalhadas.

O Programa Mais Médicos foi criado em julho de 2013, durante o governo Dilma Rousseff, com o objetivo de contratar 18.200 médicos (63% de Cuba) para atender os municípios mais pobres do Brasil. O Programa, feito a toque de caixa, não foi bem elaborado, uma vez que não tinha metas e objetivos claros nem uma lista bem desenhada com os municípios que seriam beneficiados. Assim, entre 2013 a 2016, o Programa teve um misto de bons e maus resultados. Relatório elaborado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2017 apontou que, apesar de falhas administrativas e de prestação de contas, houve aumento no número de atendimentos médicos prestados aos municípios beneficiados pelo Programa. No entanto, 26% dos municípios mais pobres não foram atendidos por médicos, ao lado de outros municípios não prioritários que receberam médicos do Programa. Diante dessa situação, o Programa Mais Médicos pouco impacto teve na redução da desigualdade no acesso à atenção básica em comparação com outras iniciativas previamente existentes que deveriam ser universalizadas, como o Programa Saúde da Família (PSF).

Alguns problemas de concepção do Programa foram corrigidos durante o governo de Michel Temer, melhorando parcialmente seu desempenho. Após a eleição de Jair Bolsonaro (presidente do Brasil de 2019 a 2022), o Programa mudou seu nome para Programa Médicos pelo Brasil, sendo reestruturado com a promessa de contratar mais 18.000 médicos. Porém, durante este governo, principalmente após a pandemia de Covid-19, o Programa Mais Médicos perdeu força e suporte financeiro, dispensando 8 mil médicos. O Programa Médicos pelo Brasil, por outro lado, nunca foi implementado pelo governo Bolsonaro.

O Programa Farmácia Popular foi criado em 2004 (Primeiro Governo Lula), com o objetivo de garantir o tratamento de doenças por meio de medicamentos gratuitos ou com desconto. A iniciativa foi bem desenhada e teve bons resultados. Através do Programa, o Ministério da Saúde paga parte do preço do medicamento (até 90% dos valores de referência) e o cidadão paga o restante, de acordo com o preço cobrado pela farmácia. No entanto, o programa apresenta falhas e dificuldades no processo de aquisição e distribuição de medicamentos e sofreu descontinuidades no Governo Bolsonaro. Em 2022, o programa Farmácia Popular atendeu cerca de 20 milhões de pessoas, o que representa 9 milhões de atendimentos a menos do que o registrado em 2015. Segundo especialistas, o orçamento do Programa para 2023 é três vezes menor que a necessidade de medicamentos da população nas modalidades de atendimento gratuito e subsidiado.

O Complexo Industrial da Saúde é constituído pelos setores industriais de base química e biotecnológica (medicamentos biológicos, sintéticos e semissintéticos, vacinas, insumos farmacêuticos ativos e reagentes diagnósticos), de base mecânica, eletroeletrônica e de materiais (dispositivos médicos) e serviços de saúde que estabelecem relações institucionais, econômicas e políticas voltadas para a inovação e produção em saúde. Desde o primeiro governo Lula existem medidas práticas para fortalecer o complexo industrial da saúde. No entanto, o governo Bolsonaro reforçou a relevância desse tema ao criar em julho de 2022 (Decreto nº 11.098) o Departamento do Complexo Industrial e Inovação em Saúde da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde (DECIIS/SCTIE/ MS), o qual teve como objetivo propor, implementar e avaliar políticas, programas e ações definidas pela estratégia nacional de promoção, fortalecimento, desenvolvimento e inovação do Complexo Industrial da Saúde.

No entanto, a maioria dos problemas estruturais do SUS não foram mencionados pelo Programa Brasil Esperança. Assim, as propostas de saúde do governo Lula para as eleições de 2022 não contemplaram a maioria das necessidades urgentes de reforma discutidas pelas autoridades e especialistas em saúde no Brasil[4].

 

O que o Governo Lula Implementou na Saúde nos Primeiros 100 dias de seu Terceiro Governo?

Ao longo dos primeiros 100 dias do governo Lula, findos em 10 de Abril de 2023, o Ministério da Saúde anunciou o apoio a algumas políticas de marca bem conhecidas dos antigos governos Lula e Dilma, tais como:

(a)    O relançamento do Programa Mais Médicos com perspectiva de contemplar um contingente de cerca de 28 mil médicos no Programa até o final de 2023;

 

(b) A criação de um movimento nacional de vacinação, intensificando as campanhas para aumentar a cobertura vacinal para diversas doenças evitáveis que foram reduzidas nos últimos anos;

 

(c)   A redução das filas de espera para cirurgias, exames e consultas médicas no SUS que foram drasticamente aumentadas ao longo dos anos de pandemia;

 

(d)   A intenção de retomar a política de desenvolvimento industrial da saúde, com a expectativa de produzir 70% dos equipamentos e insumos médicos demandados pelo SUS e reduzir a dependência de importações para o setor saúde – uma das maiores lutas enfrentadas pelo SUS junto à pandemia de Covid-19, até o final de seu governo, e;

 

(e)   A busca de recursos orçamentários para financiar os gastos criados pela legislação aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em 2022, que estabeleceu o piso salarial nacional para enfermeiros dos setores público e privado, em R$ 4.750, e estabeleceu que o salário-mínimo dos técnicos, auxiliares e parteiras de enfermagem será calculado com base nesse valor.

Além de tudo isso, ficou apalavrado (mas sem nenhuma medida concreta até o momento) que os gastos federais em saúde e educação seriam protegidos de eventuais crises econômicas e cortes no orçamento, garantindo uma trajetória de custeio para a expansão do SUS.

A maior parte das ações, anunciadas pelo próprio presidente Lula, visava reintroduzir programas e fortalecer políticas públicas que sofreram retrocessos durante o governo Bolsonaro. No entanto, sua implementação exigirá recursos orçamentários adicionais para o SUS, o que é bastante desafiador em 2023, considerado um ano marcado por um gigantesco déficit público, menor crescimento do PIB e maior inflação.

Há algumas ressalvas que tornam as intenções expressas pelo governo um pouco diferentes das iniciativas passadas na área da saúde tomadas pelos governos Lula ou Dilma. Primeiro, o programa Mais Médicos foi anunciado com algumas diferenças, como maior presença de médicos brasileiros, dado que eles entendem melhor a clientela do SUS, falam português e têm mais habilidades técnicas do que os médicos cubanos, por exemplo[5]. Por outro lado, os médicos estrangeiros só serão contratados após aprovação obrigatória no Exame Revalida, que é um teste para verificar habilidades técnicas e práticas para médicos que não são formados em faculdade de medicina brasileira.

Em segundo lugar, o governo parece estar interessado em destinar recursos orçamentários aos estados e municípios e, ao mesmo tempo, subsidiar o setor privado (principalmente as instituições filantrópicas) para permitir que consigam financiar os gastos com a expansão do piso salarial dos profissionais de enfermagem.

 

Quais são as brechas e o que se pode fazer?

As deficiências do SUS são estruturais e somente um novo arcabouço gerencial, com uma reforma complexa, mas necessária, poderia melhorar os atuais níveis de desempenho do sistema público de saúde no Brasil. Vários temas levantados por especialistas, como os relacionados ao lado da oferta, ao lado da demanda e as reformas gerenciais e do financiamento da saúde mencionadas anteriormente, não foram anunciados nos primeiros 100 dias e constituem lacunas urgentes a serem enfrentadas pelas reformas da saúde. Neste particular, algumas questões merecem ser formuladas:

·       Quais são os planos do atual governo para completar o acesso universal à saúde de qualidade para a população brasileira e estender o PSF à toda a população, por exemplo?
·       Quais são os esquemas para melhorar a preparação do sistema para enfrentar novas situações de pandemia?
·       Quais são os planos e estratégias para implementar modelos de redes de saúde para garantir a saúde integrada para todos, usando o mix público-privado de serviços disponíveis no país?
·       Quais são os caminhos para garantir financiamento suficiente e maior eficiência nos gastos públicos e privados com saúde e melhores resultados na prestação de serviços?
·       Qual é a estratégia de saúde digital para o Brasil, incluindo políticas públicas específicas para o desenvolvimento e disseminação da telemedicina, com vistas a aumentar o acesso nas áreas mais distantes com custos menores?
·       Como melhorar o desempenho da coleta de dados sobre a utilização de serviços, através do uso de prontuários eletrônicos, estudos analíticos e inteligência artificial, desde a alta administração até o ponto de atendimento?
·     Como melhorar a educação e a formação profissional em saúde, o treinamento em serviço e os mecanismos de remuneração associados à geração de valor para os pacientes e melhor desempenho gerencial e financeiro do sistema?

São perguntas sem resposta por enquanto. Os resultados anunciados nos primeiros 100 dias na área da saúde sinalizam apenas um retorno às prioridades do passado amarradas a uma agenda em descompasso com as necessidades atuais. As prioridades futuras, reconhecidas como relevantes pelos mais importantes especialistas em saúde do país, ainda não foram discutidas, organizadas e planejadas pelo novo governo. Será que essas prioridades serão progressivamente incorporadas ao longo do tempo pelo Governo? Só o tempo dirá.

Mas, como ponto de partida, para atender a essas expectativas, nossa recomendação é a implementação, no mais rápido prazo possível, da estrutura HSPA da OMS. Este deve ser o primeiro passo para permitir que o novo governo preencha a lacuna existente entre gastos, avaliação e resultados, identificando em detalhes os atuais gargalos de fragmentação, gestão e desempenho. Isso permitirá ao governo projetar metas, traçar estratégias e implementar, com eficácia, as reformas urgentes do SUS que os cidadãos brasileiros merecem e tanto precisam.



[1] Ver, sobre este ponto, matéria publicada no The Economist em 24 de Janeiro de 2021, intitulada Why an American president’s first 100 days matter. Link: https://www.economist.com/the-economist-explains/2021/01/24/why-an-american-presidents-first-100-days-matter

 

[2]    Banco Mundial (2017). Um ajuste justo: Análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil. Banco Mundial, Brasília, 2017, pp 109-119, Link: https://documents1.worldbank.org/curated/en/884871511196609355/pdf/121480-REVISED-PORTUGUESE-Brazil-Public-Expenditure-Review-Overview-Portuguese-Final-revised.pdf

 

 

[4] Ver ANAHP (2022), Propostas para o futuro da Saúde no Brasil: Como Criar Caminhos de Acessibilidade, Igualdade e Modernidade, Ed. ANAHP, Julho de 2022, Link: https://www.anahp.com.br/pdf/propostas-futuro-da-saude-no-brasil.pdf

 

 

[5] Nos últimos anos, a taxa de aprovação dos médicos cubanos que se submeteram ao Revalida foi de apenas 24%. Por esta razão, o Programa Mais Médicos foi obrigado a contratar médicos cubanos para o Mais Médicos na modalidade de estágio, e, por isso, estes não eram autorizados a realizar formalmente muitos dos procedimentos tradicionais de atenção primária realizados regularmente pelos médicos de família ou outros profissionais formados no Brasil.

segunda-feira, fevereiro 20, 2023

A quem prejudica o índice de reajuste dos planos individuais de saúde?

 Ano 18, No. 132, Fevereiro de 2023


André Cezar Medici

Claudio Contador

Introdução[1]

Em nossa última postagem, ficou evidente que existe um descompasso entre a recente retomada do crescimento do número total de beneficiários dos planos de saúde suplementar e o decréscimo do número de beneficiários de planos individuais de saúde. De fato, entre dezembro de 2018 e dezembro de 2022, o número de beneficiários dos planos de saúde suplementar no Brasil aumentou de 47,1 para 50,5 milhões, adicionando 3,4 milhões de novos beneficiários. Em compensação, os planos individuais de saúde perderam, no mesmo período, 147 mil beneficiários. Dessa forma, o número de pessoas protegidas pelos planos coletivos empresariais aumentou 10,9% ao longo do período, enquanto as protegidas pelos planos individuais e familiares se reduziu em 1,6%.

Os planos coletivos empresariais e os planos individuais representam as duas maiores categorias de beneficiários de planos de saúde no Brasil. Em 2018 essas duas categorias representavam 67.4% e 19,4% dos beneficiários da saúde suplementar no Brasil, mas em 2022 essa composição se alterou para 69,7% e 17,8%, respectivamente (ver gráfico 1).

Uma terceira categoria em importância se compõe dos beneficiários dos planos coletivos por adesão, mas estes compunham apenas 12,4% dos protegidos pela saúde suplementar. O crescimento dos beneficiários dessa categoria entre dezembro de 2018 e dezembro de 2022, foi de apenas 1,7%, ainda que sua proporção também tenha se reduzido no conjunto dos beneficiários, de 13,1% para 12,4%, respectivamente.

O pano de fundo é que a recente recuperação do crescimento de beneficiários da saúde suplementar, especialmente durante a pandemia, esteve associada aos planos coletivos empresariais, mas não aos planos individuais. Mas estes últimos são altamente relevantes para aqueles no grupo mais vulnerável da população beneficiária de planos de saúde, composta pelos que não contam com uma proteção de saúde pelo lado do empregador.

Gráfico 1 – Distribuição dos Beneficiários da Saúde Suplementar por Tipo de Plano: 2018-2022

 

     Fonte: ANS link: https://www.ans.gov.br/perfil-do-setor/dados-e-indicadores-do-setor

 

Deficiências no Comportamento dos Atores

Uma análise, mesmo que superficial, demonstraria que deficiências no comportamento de todos os atores envolvidos - operadoras, beneficiários e reguladores públicos – tiveram alguma responsabilidade na redução da população beneficiária pelos planos individuais de saúde suplementar.

Do lado das operadoras, tem faltado transparência em demonstrar como tem crescido os seus custos, ao longo do tempo, e como isto afeta negativamente seus resultados financeiros, especialmente no que se refere aos planos individuais, onde as operadoras não têm tido bons resultados nestes últimos cinco anos.

As operadoras deveriam esclarecer, para a população, as razões pelas quais o valor dos prêmios dos planos individuais pode aumentar mais do que os orçamentos das famílias, ou ainda, porque os custos médico-assistenciais sobem, em geral, mais do que a inflação. Deveriam tentar explicar que os planos individuais, diferentemente dos planos coletivos, são impedidos de recuperar a integralidade do aumento de seus custos médico-assistenciais, através de reajuste nos prêmios, quando estes custos sobem mais do que o teto de reajuste unificado estabelecido pelos reguladores. Faltaria tentar explicar que, se estes planos começam a dar prejuízo, de forma sistemática, as operadoras não terão condições financeiras de mantê-los.  

Do lado dos beneficiários, faltaria seu entendimento do que é a materialidade da cobertura de um seguro de saúde, especialmente no que se refere ao seu rol de procedimentos. É claro que novas coberturas devem ser incluídas desde que melhorem a saúde e a qualidade de vida dos beneficiários, mas sempre que estiverem associadas a critérios de custo-efetividade. Também deverá haver a consciência e o consentimento de todos de que esta incorporação poderá elevar o valor do prêmio, dado que aumenta o espectro de utilização dos serviços e, consequentemente, poderá elevar os custos associados aos planos.

Também faltaria, do lado dos beneficiários, um maior comprometimento com a sua própria saúde, ou seja, praticar hábitos saudáveis[2], realizar exames preventivos nas datas certas e evitar utilizar os serviços de saúde quando não há necessidade, ou ainda evitar impetrar ações judiciais para receber bens e serviços de saúde que não estão cobertos no rol de procedimentos.

Do lado dos reguladores públicos, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)[3] vem praticando, desde 2018, uma inadequada regulação dos prêmios, refletida na aplicação do Índice de Reajuste dos Planos Individuais (IRPI), o qual limita o teto de reajuste do valor dos prêmios a percentuais inferiores à variação dos custos médico-assistenciais, levando as operadoras, por questão de sobrevivência, ou a não oferecer novos planos, ou a praticar um progressivo downgrade na cobertura dos serviços[4] nos planos existentes, ou ainda a buscar estratégias alternativas ao mercado de indivíduos e famílias onde tenham mais liberdade para recompor o aumento de seus custos, como é o caso dos planos coletivos por adesão ou dos planos para pequenas e médias empresas.

É necessário fiscalizar e impedir que os prêmios dos planos individuais incorporem, em seus reajustes, abusos econômicos, como ganhos extraordinários acima dos custos das operadoras, os quais são injustos para os beneficiários. Mas não parece ser isso que ocorre no setor de planos individuais de saúde. Desde o início da vigência do IRPI, a taxa de sinistralidade da saúde suplementar aumentou de 83,4% para 89,3% considerados os terceiros trimestres de 2018 e 2022, respectivamente.

Os dados da ANS apontam uma queda absoluta no valor das receita de contraprestações em 2022 em relação a 2021 e a tendência a ter prejuízos poderá aumentar no setor em 2023, na medida em que as futuras receitas de contraprestações não deverão acompanhar o crescimento dos custos assistenciais em função de mudanças regulatórias como a passagem do rol taxativo para o rol exemplificativo de benefícios, entre outros, num ambiente onde a ANS tenta evitar que as operadoras recuperem a totalidade dos seus custos assistenciais.

Além disso, a ANS, em que pese sua impecável atuação em outros temas de regulação da saúde suplementar, sempre atuou no sentido de uniformizar o tratamento dos mercados de planos de saúde suplementar, os quais são totalmente diferentes, seja do ponto de vista de sua estrutura organizacional[5], seja do ponto de vista regional.

Essa descoordenação entre operadoras, beneficiários e entidades reguladoras, acaba fazendo com que o mercado de planos individuais se esgarce e sucumba diante a percepções diferenciadas e falta de interesse em abrir o jogo para tentar buscar uma solução conciliatória que permita o entendimento das diferenças e o tratamento diferenciado de cada mercado.

A ANS tem se esmerado em focalizar sua regulação no valor dos prêmios de beneficiários dos planos individuais, com o objetivo de eliminar barreiras econômicas que permitam que esse segmento, supostamente mais desprotegido em termos de acesso, e composto por uma classe média com menor poder aquisitivo, venha a ser atendido em sua demanda reprimida por planos de saúde. Para este segmento, estes planos são encarados, não apenas como uma necessidade, mas também como uma das principais preferências de consumo, como apontam as pesquisas de opinião. Mas, apesar das “boas intenções” da ANS, o resultado tem sido justamente o oposto ao desejado.   

A reação das operadoras tem se dado no âmbito de algumas medidas como o relativo fechamento da oferta de planos para novos beneficiários individuais e familiares e o incentivo para que esta demanda reprimida, seja atendida através planos coletivos por adesão, ou para pequenas e médias empresas (de 1 a 5 vidas). Esses últimos, somente entre junho e novembro de 2022, passaram de 3,6 para 3,9 milhões de beneficiários dentro do conjunto dos planos empresariais.

Além disso, várias medidas de contenção de custo também vêm sendo tomadas pelas operadoras, tais como o aumento de beneficiários em planos com coparticipação e/ou franquia (entre dezembro de 2019 e dezembro de 2022 aumentaram de 55,2% para 58,1% do total de beneficiários da saúde suplementar) onde parte dos aumentos de custos médico-assistenciais possam ser repassados através de cobranças, e/ou de restrições como a internação em planos de acomodação em enfermaria.

 

Os beneficiários vêm sendo duplamente prejudicados em algumas regiões

O IRPI, ao ser um índice uniformemente aplicado a todos os planos individuais do Oiapoque ao Chuí, impacta de forma diferencial as operadoras e os beneficiários em cada mercado ou região, seja porque cada segmento de mercado atua de forma diferente e tem custos assistenciais diferenciados, seja porque num país heterogêneo e federativo como o Brasil, existem vários mercados de saúde suplementar, onde custos assistenciais e receitas de contraprestação se comportam de forma diferenciada.

A própria ANS, na publicação de seu Atlas da Saúde Suplementar de 2018, reconheceu a existência de pelo menos 96 mercados relevantes de saúde suplementar para planos individuais. Mas ao invés de tratar esses mercados de forma diferenciada para efeitos de calcular os reajustes dos prêmios, segundo as características de cada mercado, a ANS optou em ter um percentual único, uniforme e nacional como teto de reajustes dos prêmios dos planos individuais em todas as regiões do país.

Esse tipo de processo vem trazendo dois tipos de prejuízos que levam à redução dos beneficiários de planos individuais e ao aumento dos reajustes dos prêmios acima variação dos custos médico-assistenciais (VCMH). Primeiramente, ao desconsiderar que em muitos desses mercados, a variação do VCMH foi superior ao IRPI, as operadoras acabam restringindo a oferta de novos planos, ou buscam racionalizar o acesso aos beneficiários aos planos existentes, como forma de evitar custos maiores no próximo exercício. Já nos mercados onde a variação do VCMH é inferior ao IRPI, os beneficiários acabam sendo prejudicados ao receber, através do IRPI, reajustes maiores do que deveriam receber[6].

Portanto, os mercados de saúde suplementar no Brasil são segmentados por tipo de seguro e por estado ou região, não havendo nenhum sentido em utilizar um teto de reajustes único dos planos individuais que seja válido para todo o país, dado que a segmentação dos mercados leva a diferentes tipos de comportamentos na variação de custos médico hospitalares, seja por região, seja por segmento de mercado, levando a diferentes reações dos atores relevantes – operadoras e beneficiários.

Por exemplo, variação do número de beneficiários dos planos individuais de saúde entre 2020 e 2021 apresenta uma grande heterogeneidade de resultados por Unidades da Federação (UF), como pode ser visto no gráfico 2. Verifica-se, por exemplo que a queda de beneficiários foi acentuada em Estados como Acre, Amazonas, Rio de Janeiro, Tocantins, Ceará, Minas Gerais, Alagoas, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pará, Rio Grande do Sul, Rondônia, Goiás, Pernambuco e Bahia.

Fonte: ANS link: https://www.ans.gov.br/perfil-do-setor/dados-e-indicadores-do-setor

 

No entanto, houve um aumento de beneficiários de planos individuais no Mato Grosso, Espírito Santo, Paraíba, Amapá, Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Sergipe, Piauí, Maranhão, Roraima e Distrito Federal, sendo que neste último o aumento foi superior a 25%.

É interessante notar que 2020 foi um ano que marcou o retorno ao crescimento dos beneficiários da saúde suplementar, o qual vinha caindo desde a gestão caótica da política econômica que levou à crise de 2014 e 2016. Essa reversão se deu, não por conta de uma melhoria da economia em 2020, dado que foi um novo ano de crise econômica, desta vez por conta da pandemia, mas sim pela busca de proteção de saúde por parte das empresas e das famílias num momento de grande instabilidade provocada pela pandemia e pelo caos em conseguir atendimentos nos serviços médico-hospitalares do SUS.

Mas o crescimento da afiliação dos planos de saúde não foi acompanhado por uma taxa equivalente de utilização dos serviços na saúde suplementar, fazendo que ocorresse, pela primeira vez na história, uma VCMH negativa de -5,19% e um IRPI, igualmente negativo, de -8,19% para os planos individuais.

Vale destacar, no entanto, que em 2021, embora a maioria dos Estados tenha encontrado uma VCMH negativa, esta, além de diferenciada por unidade federada, foi positiva nos Estados de Amazonas, Pará, Minas Gerais, Goiás e Tocantins, tendo sido negativa em todos os demais Estados, como pode ser observado no gráfico 3. Verifica-se que em alguns Estados as variações da VCMH foram muito elevadas, o que pode estar associado à baixa frequência do número de beneficiários dos planos de saúde neste período e a erros eventualmente existentes nas formas de registro das bases de dados[7].

 

      Fonte: Estimativa da Arquitetos da Saúde, com base nos dados do TISS da ANS.

 

A VCMH entre 2019 e 2020 é a que é utilizada para a variação do IRPI 2020-2021 e, portanto, seria a que potencialmente teria alguma relação com os possíveis efeitos do IRPI na variação do número de beneficiários 2020-2021. Mas o cruzamento das duas séries de dados (a da tabela 3 e da tabela 4), a partir de análises estatísticas realizadas, mostra que não há correlação aparente entre a variação do número de beneficiários de 2020-2021 e a variação da VCMH 2019-2020.

O que se pode obter ao comparar estas duas séries de dados são as situações encontradas no quadro 1, abaixo:

Quadro 1 – Análise de situações possíveis por Estado ao se utilizar um IRPI único

 

Estados que tiveram variação negativa do VCMH entre 2019 e 2020 maior do que o IRPI (-8,19%) de 2020-2021.

Estados que tiveram variação positiva do VCMH entre 2019 e 2020 ou variação negativa menor do que a variação do IRPI (-8,19%) de 2020-2021

Estados que tiveram redução do número de beneficiários de planos individuais entre 2020 e 2021

Quadrante 1:

AC, AL, BA, CE, MS, PR, PE, RJ, RS, SP

Quadrante 2

AM, GO, PA, MG, RO, TO

Estados que tiveram aumento do número de beneficiários de planos individuais entre 2020 e 2021

Quadrante 3

AP, DF, ES, MA, PB, PI, RN, RR, SC, SE

Quadrante 4

MT

     Fonte: Elaboração dos autores a partir das bases de dados utilizadas nos gráficos 2 e 3.

Ainda que a variação do VCMH por Estado seja uma média que não reflete a situação específica de cada operadora, o quadro acima demonstra que ocorreram, em média, quatro situações:

a.     Os Estados situados no Quadrante 1 tiveram redução do número de beneficiários em seus planos individuais, mas, em média, as operadoras podem ter sido contempladas por um IRPI que, ainda que negativo, foi menor do que a variação negativa da VCMH média do Estado, levando, portanto, a ganhos diferenciais no aumento de seus prêmios. Nestes casos, os beneficiários tiveram seus prêmios reajustados com descontos menores do que teriam, caso tivesse sido aplicada a VCMH média do Estado para a variação de seus prêmios;

b.     Os Estados situados no Quadrante 2 também tiveram redução do número de beneficiários em seus planos individuais, mas, neste caso, a variação média da VCMH dos Estados foi positiva ou, quando negativa, foi menor do que a variação do IRPI, trazendo descontos nos prêmios pagos pelos beneficiários que foram menores do que os que seriam pagos, caso fosse aplicada a VCMH média do Estado. Neste caso, ganharam os beneficiários e perderam as operadoras;

         Os Estados situados no Quadrante 3 tiveram um aumento de beneficiários, mas as operadoras foram contempladas por uma situação similar a ocorrida no Quadrante 1, ou seja, perdem os beneficiários e ganham as operadoras.

        Os Estados situados no Quadrante 4 tiveram um aumento do número de beneficiários mais, da mesma forma que o ocorrido no quadrante 2, os ganhos na relação entre a VCMH e o IRPI acabaram sendo favoráveis aos beneficiários e desfavoráveis para as operadoras.

Uma outra forma de mostrar a inadequação de ter um IRPI único para todas as operadoras de planos individuais é a discrepância que existe entre a VCMH de distintas modalidades de operadoras. O quadro 2 mostra a VCMH de 2019-2020 e 2020-2021 por modalidade de operadora e as perdas de reajuste do prêmio, em pontos percentuais, estimadas em relação ao IRPI para 2021 e 2022.

Quadro 2: Variação dos Custos Médico Hospitalares (VCMH) dos Planos de Saúde Individuais por modalidade de operadora de plano de saúde: 2021 e 2022

 

Modalidade de Operadoraa

VCMH – 2019-2020 (%)b

Perda Média das Operadoras em Relação ao IRPI 2021 (pontos percentuais)c

VCMH – 2020-2021 (%)b

Perda Média das Operadoras em Relação ao IRPI 2022 (pontos percentuais)c

Cooperativa Médica

-3,71

4.48

16,45

0,95

Filantropia

-8,91

-0,90

17,12

1,62

Medicina de Grupo

-7,80

0,39

23,60

8,09

Seguradora

5,42

13,61

20,08

4,57

TOTAL

-5,19

3,00

19,61

4,10

IRPI

-8,19

-

15,51

-

Fonte: Arquitetos da Saúde. a Não foi incluída na tabela a modalidade autogestão, dado que em 2020 e 2021 somente existiam 272 e 310 vidas na modalidade individual, respectivamente, ocasionando variações elevadas na VCMH. b O ano base é sempre o ano anterior. Dessa forma a VCMH DE 2021 é a variação de 2020 em relação a 2019 e a VCMH de 2022 é a variação de 2021 em relação a 2020. c Perdas negativas equivalem a ganhos em pontos percentuais.

 

Observa-se que a VCMH varia bastante segundo a modalidade da operadora. Considerando o IRPI aplicado em 2021, somente o segmento filantropia teve ganhos em relação a variação do VCMH. Todos os demais segmentos perderam, podendo estas perdas terem chegado até 13,6% no que se refere ao segmento das seguradoras. Já em 2022, todos os segmentos de mercado de planos individuais perderam em relação ao IRPI, sendo que as maiores perdas concentradas no segmento de medicina de grupo e as menores na área de cooperativas médicas.

 

Conclusões

Portanto, respondendo a questão colocada no título deste artigo, o IRPI, por ser um índice único e não levar em conta as diferenças entre mercados regionais, pode estar prejudicando, primeiramente, os beneficiários da saúde suplementar, seja através de levar a reajustes maiores do que a variação de custos do setor em alguns estados, seja porque, onde isto não ocorre, pode estar estimulando as operadoras à fecharem às portas para novos planos individuais. Em segundo lugar, as operadoras menores e mais débeis são também prejudicadas, dado que mesmo que sejam importantes em seus mercados regionais, não resistem, a médio e longo prazo, aos reajustes de prêmios menores do que os custos médico-assistenciais que incorrem. Isso pode estimulá-las a praticar políticas que são prejudiciais aos beneficiários (como  o downgrade no acesso ao plano, fechamento de novas vagas, estímulo a planos coletivos não empresariais), especialmente nas regiões com poucas concorrentes, e, até mesmo, ao seu fechamento, alavancando o movimento de concentração dos mercados de saúde suplementar nestas regiões.

Como os mercados de saúde suplementar no Brasil são segmentados por tipo de operadora e por estado ou região, acarretando variações diferenciadas de custos por segmento de mercado ou por região, não há nenhum sentido em utilizar um teto de reajustes único dos planos individuais que seja válido para todas as operadoras em todo o país.

A melhor aproximação para o percentual de reajuste de um prêmio é a variação específica da VCMH de cada operadora, desde que obedecendo a parâmetros estabelecidos de transparência e auditoria dos dados. Nesse sentido, como a ANS vai rever o IRPI em 2023, seria uma boa oportunidade buscar opções que permitam corrigir estas distorções no processo de reajuste dos prêmios dos planos individuais, as quais atualmente prejudicam os beneficiários, não apenas de forma direta, mas também de forma indireta, ao aumentar a instabilidade do mercado de planos individuais de saúde.

A regulação da saúde suplementar deveria ser precisa, baseada em evidências, e na confiança mútua entre os atores que fazem parte deste mercado – operadoras, beneficiários e reguladores. Ao invés de adotar um índice unificado nacional para o reajuste dos prêmios, a ANS deverá buscar processos que definam critérios sólidos de variação dos custos médico-assistenciais e metodologias transparentes de apuração e disseminação de dados das operadoras, que levem a reajustes dos prêmios precisos para cada mercado, de forma a respeitar suas características de organização e sua relação com os atores do setor.  


NOTAS DO TEXTO 

[1] Cláudio Contador é CEO da SILCON, Estudos Econômicos - Empresa de Consultoria Econômica do Brasil. Os autores agradecem aos comentários de Luiz Feitoza e Adriano Londres, empreendedores da Arquitetos da Saúde.

[2] O governo, incluindo a ANS, deveria investir mais em campanhas sobre os benefícios de praticar hábitos saudáveis ou até mesmo de dar incentivos materiais, como descontos em academias de ginástica. Alimentos saudáveis, por exemplo, deveriam ser isentos de impostos para serem mais facilmente incorporados à dieta das famílias, mas o governo brasileiro sequer cogita esse tema e, provavelmente, não está nos planos da reforma fiscal que será implementada pelo governo.

[3] A ANS tem tido um papel imprescindível na regulação da saúde suplementar e seu caráter independente na regulação do mercado de saúde suplementar deve ser mantido e preservado, assim como o das demais agências que foram criadas para regular setores importantes da sociedade como vigilância sanitária, energia elétrica, água, saneamento e telecomunicações.  O Congresso discute atualmente uma emenda para reduzir o poder das agências reguladoras – que hoje desfrutam de relativa autonomia – e submeter suas decisões à aprovação de conselhos vinculados ao governo federal, o que praticamente aniquila seu caráter independente e aproxima a antes elogiada gestão pública brasileira daquela existente em governos autocráticos.

[4] Ver artigo de Luiz Feitoza, “O Estranho Movimento do VCMH em 2022, publicado no site da Arquitetos da Saúde, em 01/02/2023 – Link: https://www.linkedin.com/pulse/o-estranho-movimento-da-vcmh-em-2022-luiz-feitoza/

[5] Cooperativas médicas operam de forma diferente das seguradoras de saúde, que atuam de forma diferente dos seguros médicos, os quais, por sua vez, são administrados de forma diferente das empresas de medicina de grupo, as quais operam de forma diferente dos planos autoadministrados pelas empresas as quais, também são gerenciadas de forma diferente das instituições filantrópicas que oferecem planos de saúde. Estas diferenças operacionais se refletem obviamente, em diferenças na composição dos custos, no processo de formação de preços do setor e nas necessidades de reajuste do valor dos prêmios. Ter um teto único de reajuste para mercados tão diferentes é, no mínimo, uma bizarrice.

[6] Embora a ANS fixe um teto único de reajuste para planos individuais de saúde, as operadoras que quiserem reajustar o valor de seus prêmios por debaixo do teto estabelecido tem plena liberdade para fazê-lo, mas em geral esta prática não ocorre.

[7] Os dados estimados a partir da base de dados do sistema de troca de informações da saúde suplementar (TISS) da ANS ainda não são perfeitos, pois apresentam um sub registro médio de 18% e 22% de informações dos sinistros necessários ao cálculo do VCMH para os anos de 2019 e 2020, em termos médios nacionais. A base de dados do TISS relacionada aos sinistros ao nível estadual e municipal podem ter sub registros maiores do que os relativos à média nacional. Os dados da TISS relacionados aos sinistros levam em conta o município de domicílio do beneficiário e não o município de seu local de tratamento. Por este motivo, alguns Estados podem apresentar uma despesa assistencial outlier muito elevada para o tamanho de sua população, já que alguns beneficiários possam ter se tratado em Estados com maior estrutura de saúde e centros de referência. Uma forma de corrigir esse problema seria utilizar a UF onde o tratamento foi feito ao invés da UF de domicílio do beneficiário.