sábado, agosto 22, 2020

Impactos da Pandemia na Educação: Uma Entrevista com Cláudio Moura Castro

 Ano 14, Número 109, agosto de 2020

 

Os efeitos da Covid-19 afetaram muitas vidas em todas as suas dimensões, mas certamente uma das dimensões onde o impacto parece ter sido maior foi a da educação. O ano de 2020 parece ter sido perdido em termos de progressos educacionais. Será verdade? Pode-se dizer que nem tanto ao mar e nem tanto à terra. É o que revela a entrevista de Cláudio Moura Castro.


Cláudio é um dos maiores especialistas em educação e formação profissional no Brasil, detendo uma vasta trajetória nacional e internacional. Nascido no Rio de Janeiro, foi bem cedo para Minas Gerais incorporando a perspectiva e a cultura daquele Estado em seu DNA intelectual. Graduado em Economia pela UFMG, mudou-se para os Estados Unidos onde fez mestrado na Yale University e, na sequência, doutorado na Vanderbilt University, ambos em Economia.  A passagem de Yale para Vanderbilt ocorreu através de uma longa viagem cruzando os Estados Unidos pela Route 66 no dorso de uma motocicleta. Ao longo do tempo complementou sua formação com cursos nas Universidades de Berkeley e Harvard.

Suas atividades como professor incluíram várias universidades como a PUC-Rio de Janeiro, Universidade de Chicago, Universidade de Brasilia, Univeristé de Geneve e Université de la Borgnone. No Brasil, liderou várias instituições como o Centro Nacional de Recursos Humanos (CNRH) do IPEA e foi Diretor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério Educação.

Passou um longo tempo de sua vida no exterior, inicialmente como Chefe da Unidade de Políticas de Formação da Organização Internacional do Trabalho em Genebra (Suiça), mudando-se depois para Washington, onde foi economista da educação do Banco Mundial e posteriormente, Assessor-Chefe de Educação no Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Ao retornar para o Brasil, na primeira década do milênio, Claudio foi assessor de grupos privados de educação superior, como o Pitágoras e Positivo e atualmente atua na consultoria Eduqualis e também como colunista da Revista Veja e do jornal Estado de São Paulo. Tem cerca de 50 livros e 300 artigos acadêmicos publicados em temas como educação, políticas sociais, saúde, ciência e tecnologia. Tem também interesse e publicações em áreas como turismo-aventura, arquitetura, ofícios manuais, marcenaria, mecânica, e expedições de aventura. Um livro que congrega parte dessas aventuras e é uma leitura imperdível é “Meio Século no Limiar do Perigo”, publicado em 2005 pela Editora Record.

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Monitor de Saúde (MS) - Uma das principais estratégias de combate a Pandemia do Covid-19 foi o distanciamento social, que inclui um conjunto de várias medidas, dentre as quais a primeira tomada na maioria dos países (ainda no início de março) foi o cancelamento das aulas presenciais em quase todos os países desenvolvidos, mas também nos países em desenvolvimento afetados pela pandemia. De acordo com dados da UNICEF para fins de julho de 2020, 1,7 bilhões de estudantes estavam temporariamente sem aulas, afetando 98% da população estudantil no mundo. Quais estratégias os países estão utilizando para evitar que haja uma perda, não só no ano letivo, mas principalmente, nos níveis de aprendizado dos estudantes?

Cláudio de Moura Castro (CMC) - Para início de conversa, ensino a distância (EAD) não é novidade. Em 1728 foi anunciado um curso pela Gazeta de Boston, oferecendo material para ensino e tutoria por correspondência. Em 1829, cria-se na Suécia, o Instituto Líber Hermondes, que ofereceu cursos à distância para mais de 150.000 pessoas. Essa modalidade dá um grande salto com a invenção do selo de correio, em meados do século XIX. Portanto, começando com o ensino por correspondência, o caminho do EAD vem sendo trilhado por mais de dois séculos.

No Brasil, em 1904, o Jornal do Brasil registra um anúncio oferecendo profissionalização por correspondência para datilógrafos. No ano de 1939, surgiu em São Paulo o Instituto Monitor, seguido do Instituto Universal Brasileiro. Ambos ofereciam cursos profissionalizantes. Estima-se em vários milhões de brasileiros aprenderam assim a consertar rádios. 

Em meados dos anos 50, aprendi também reparação de rádios, cursando o Monitor. E aprendi melhor por correspondência os assuntos equivalentes ao ensinado no nível médio.

Os avanços digitais tornaram as comunicações no ensino a distância amplamente mais rápidas e eficientes do que pelo correio. Mas a ideia é a mesma. Nada de novo. De resto, no ensino superior, antes da pandemia, a matrícula no EAD brasileiro já se aproximava da presencial.

O que há de novo e nem tão bem-vindo é o uso do EAD no ensino básico. Está longe de ser uma solução satisfatória, pois a presença física é essencial nesse nível. Porém, é a distância ou nada.

Por ser uma solução antes inexistente para este alunado, a transição sofreu com o inevitável atropelo e com a inexperiência de operar nesse nível. Não obstante, foi extraordinário o esforço para vencer essa barreira inicial. Considerando o formidável desafio, não se pode dizer que a escola fracassou.

 

MS - Os dados mostram que muitos países, especialmente os países mais avançados, têm utilizado tecnologias digitais, como a tele-educação, para manter a regularidade das classes nas escolas. Estas estratégias são eficientes, no sentido de cobrir a totalidade dos conteúdos transmitidos em aulas presenciais? Há alguma avaliação de que a qualidade da educação não está caindo pela troca de experiências presenciais por experiências digitais?

CMC - Mesmo países como o Brasil usam a Internet, Blackboard, YouTube, Zoom e múltiplas outras ferramentas. Não há nada de essencial que não esteja sendo usado dentre nós. Inexiste uma diferença significativa no que se adota nos nossos melhores sistemas de ensino, em comparação com, digamos, os Estados Unidos. O grande fosso é entre categorias de escolas. As melhores privadas embarcaram rapidamente e incorporaram todo o repertório tecnológico. Mas daí, é morro abaixo. A disponibilidade de computadores e banda larga cai, quanto mais pobre a escola – e inevitavelmente, os alunos. Dependendo de como se define 'disponibilidade de tecnologia', entre metade e 90% dos alunos têm alguma coisa que lhe permite o acesso às redes. Quando nada, um smartphone. Mas há uma diferença enorme entre os extremos. E note-se, uma família com cinco alunos, mesmo de classe média, não tem cinco computadores em casa. No limite inferior, algumas redes distribuem e recolhem materiais escritos nas casas dos alunos mais desprovidos. Está longíssimo do desejável, mas é melhor do que nada.

Diante desse quadro tão variado, os resultados não são menos díspares. Milhões de alunos perdem pouco ao frequentar o novo sistema. E há quem ganhe, pois as discussões digitais são mais eficazes para certos perfis psicológicos. Na outra ponta da distribuição, há muitos alunos a quem nada é oferecido ou que, desencorajados com a má experiência, abandonam o curso.

 

MS - Ainda que haja o uso de estratégias digitais para substituir as aulas presenciais, nem sempre isso é possível dado que nem todos os alunos tem disponibilidade de tecnologia (computadores e internet) para aulas digitais. Nas economias avançadas, as escolas buscam levar aos estudantes mais carentes os computadores e a conexão para evitar estas perdas. Mas isto não ocorre nos países em desenvolvimento e de renda baixa. Qual o impacto que isto poderá trazer no aumento da inequidade de oportunidades futuras, para usar a linguagem de Amartya Sen, dado que a desigualdade educacional está na raiz das futuras inequidades sociais e na dinâmica do desenvolvimento econômico? É possível ter estratégias alternativas para evitar estas nefastas consequências?

CMC - Há respostas divergentes para duas questões paralelas. Na primeira, consideremos que a educação sempre serviu para arrumar as pessoas dentro de uma hierarquia econômica – que a curto prazo a pandemia não afeta. Quem tem mais e melhor educação, já começa em um galho mais alto. E vice-versa. Como todos estão sendo prejudicados, pode-se imaginar que esta ordenação não vai mudar muito. Na segunda questão, todos sofrem por receber uma educação improvisada. Porém, é pior para os mais pobres. Esta perda subtrai do já limitado capital humano que tem nossa sociedade. É um grande prejuízo, mas é de longo prazo e não temos como medi-lo de forma confiável.

 

MS - Como a Covid-19 tem afetado o desempenho da educação pública no Brasil? Por exemplo, na área de educação básica, os municípios estão dando boas respostas para evitar perdas de aulas e conteúdos educacionais na escola pública? Como os Estados estão enfrentando isso na educação secundária. Como o governo federal enfrenta a questão na educação superior?

CMC - Uma coisa é certa: o COVID-19 precipitou uma revolução tecnológica no ensino formal. Quem se persignava diante de um computador ou seus aplicativos, de um dia para o outro, passou a usá-los em tempo integral. Esse talvez seja o lado positivo mais espetacular da crise, uma vez que as tecnologias digitais podem trazer grandes benefícios, se bem usadas. Difícil imaginar que, ao fim da crise, tudo será abandonado.

Todavia, a qualidade do que acontece segue linhas quase previsíveis. Os estados sulinos, de São Paulo para baixo, reagiram rapidamente e estão se saindo tão bem quanto se poderia esperar. Algumas secretarias estaduais se organizaram seriamente para apoiar suas escolas. Filantropias como a Leman Foundation e o Instituto Unibanco montaram programas para ajudar as secretarias.

No resto do país a situação é muito variável. No Fundamental, os municípios mais estruturados e com educação melhor parecem mostrar dinamismo e capacidade de reação.  Em outros, já precários no seu ensino tradicional, não se pode esperar muito.

O MEC, mergulhado no maremoto das incessantes mudanças de equipe, pouco pôde ou soube oferecer para ajudar estados e municípios. O mais óbvio seria financiar tecnologia para escolas e alunos mais pobres. Mas sua ação tem sido tíbia. Com o novo Ministro, parece que vai mover-se nesta direção.

 

MS - Há no Brasil alguma diferença entre as estratégias, recursos e processos de enfrentamento da crise do Covid-19 na educação entre os setores público e privado de educação?

CMC - Monumental! O sistema privado, seja no Básico ou no Superior, em semanas ou dias se baldeou para a EAD. Claro, instituições alertas como o INSPER e FIA-USP andaram rápido e bem. Outras menos, mas não consta que alguma ficou paralisada, em qualquer nível.

Já no lado público, há duas situações fundamentalmente distintas. Praguejando, lamentando e sofrendo, o ensino básico foi arrastado para o EAD, algumas redes mais rapidamente do que outras. Não estavam preparadas e não tinham os meios financeiros e intelectuais para a transição. Mas a fizeram.

Em contraste, quase todas as universidades federais, simplesmente, empacaram. Segundo sua explicação, como nem todos os alunos têm acesso pleno à tecnologia, passar os cursos para EAD seria prejudicá-los, aumentando a desigualdade. Mas note-se que, segundo a Fundação Leman, quase todos os alunos do ensino médio têm, pelo menos, um smartphone.  É de se imaginar que, no ensino superior, quase todos tenham também computadores. E, não nos esqueçamos, o correio funciona. Seja como for, pela lógica das universidades públicas, é preferível prejudicar a todos do que apenas a uma pequena minoria. A se registrar, algo como meia dúzia das federais embarcaram no EAD (e vale notar, USP e Unicamp também).

 

MS - Quais são as diferentes modalidades de enfrentamento da crise da educação em escolas e universidades públicas e privadas?

CMC - Escolas tecnologicamente mais bem equipadas usam aplicativos como o Zoom para continuar com as aulas, seguindo o mesmo modelo do presencial. É a fórmula que menos terremotos provoca. E funciona. No nível superior, o EAD já é uma realidade consolidada em muitas instituições. Nessas escolas, seja com materiais escritos, seja com clipes televisivos, a única mudança é a migração de todos os alunos para a modalidade a distância. Naturalmente, para quem já era fraco ou não tinha EAD, as dificuldades foram maiores. Mas não nos esqueçamos, neste nível, a maturidade dos alunos e seus meios econômicos já são bem superiores. E como mostram os resultados do ENADE - pré-pandemia - entre distância e presencial não há diferenças significativas em favor de uma ou outra alternativa.

No nível Básico, a situação é muito mais incerta. Para começar, embora inevitável, não é uma boa solução suprimir a convivência com pares e professores.

 Na sua operação, algumas redes caminharam para soluções ao estilo Telecurso 2000, ou seja, a mesma aula para todos os alunos. Ilustrando, um único professor dá o curso de português da quarta série para toda a rede. O que complementa essas aulas é bem mais variado e de eficácia igualmente diferente.

A experiência norte-americana mostrou o enorme potencial de usar projetos, mais do que aulas expositivas regulares. Mas não tenho informações sobre esta prática no Brasil.

Um problema novo é que o aluno do ensino básico requer muito mais apoio pessoal. Necessita sentir-se parte de um grupo social e pode precisar atendimento personalizado para vencer as barreiras que vão aparecendo. Mas não creio que tenhamos informações adequadas sobre o desempenho das escolas nesse tópico.

 

MS - Um dos problemas associados a pandemia do Covid-19 é a sua instabilidade dada pelo risco de retornos ao crescimento de contaminados e novas ondas pandêmicas. Vários países estão passando por esse processo recentemente, como a Nova Zelândia, levando a ameaças de fechar novamente as escolas. Mesmo que as escolas não fechem, a insegurança dos pais deixa de levar as crianças às escolas. Nesse processo de incertezas, é possível fazer com que o modelo de educação digital passe a ser uma regra permanente e não uma exceção associada a crise?

CMC - Qualquer solução única para todos seria um desastre. Dado o maior grau de maturidade dos alunos do ensino superior há indicações de que o híbrido seja amplamente melhor do que o presencial tradicional. Ou seja, em casa mais leitura e mais escrita. E menos tempo ouvindo preleções. Fica o presencial para discussão e socialização. Mas quem olha para o mapa do Brasil logo vê que as distâncias impedem muitos de viver próximo a um curso. Portanto, o EAD puro é inevitável.

Nos primeiros doze anos de ensino, não pode estar em cogitação manter o ensino a distância, uma vez superados os riscos da pandemia. Além do que já foi mencionado, esse regime exige mais disciplina e responsabilidade pessoal, o que é uma capacidade mais precariamente distribuída entre os mais jovens e, em particular, entre os mais pobres.

Porém, à margem das rotinas presenciais, a nova tradição de reuniões a distância tem boas razões para ser mantida. Por exemplo, não seria mais fácil reunir-se com os pais por esta forma? Igualmente, muitos usos da tecnologia, impostos pela distância, podem ser mantidos no futuro.

Quando voltarão as aulas presenciais? O pior cenário seriam voltar todas no mesmo dia, pois em cada lugar a pandemia tem a sua dinâmica própria. Seja como for, lamento confessar que não saberia dizer quando deve começar o lento processo de volta às aulas. De fato, é particularmente ambígua, mesmo a literatura técnica mais séria sobre esse assunto.

 

MS - No caso da educação superior, o modelo digital de @learning tem sido utilizado por muitas universidades e cursos digitais, especialmente ao nível de pós graduação, antes vistos com maus olhos, passam agora a ser encarados seriamente e muitas universidades de grande porte, como as Ivy-Leagues norte-americanas (Harvard, Stanford, Berkeley) estão utilizando este modelo como principal em muitas áreas. É possível que esse modelo passe a acontecer com maior frequência em outros níveis educacionais?

CMC - Entre a realidade e a imagem há uma distância. Ou como já dito, o fato vale menos do que a versão. Quando Sir Walton of Perry recebeu a missão de criar a Open University, logo procurou Oxford e Cambridge. Mas foi rechaçado sumariamente. Hoje já se viu que um bom EAD deixa pouco a desejar diante do presencial. E o híbrido, além de mais barato, mostra rigorosamente o mesmo resultado.

Com quinze anos de idade, morando no interior das Minas Gerais, ao fazer o curso do Monitor, achava que estava sendo muito bem servido. Era melhor e mais prático do que a escola local. Paradoxalmente, o curso por correspondência tinha mais atividades concretas e com as mãos do que a escola. Mais de meio século depois, pesquisas rigorosas mostram que minha percepção juvenil não estava equivocada.

Na Rússia, na década de 30, uma boa proporção dos estudantes de Engenharia estudava por correspondência. Nos fins de semana, iam praticar nos laboratórios e oficinas da escola. 

Mas números nem sempre enfrentam com êxito as mitologias arraigadas. Persistiu um ceticismo arrogante por décadas, desqualificando o ensino a distância. A pandemia veio mostrar a infantilidade de tais preconceitos.

Façamos um exercício intelectual singelo. Tomemos dois cursos fracos, um presencial e outro EAD. No primeiro, os alunos passam vinte horas semanais sentados diante de um professor que fala sem parar. Ou seja, a interação é mínima. Apenas para ouvi-lo, como é o caso, pouca diferença faria se estivesse em Tóquio, com o Zoom. Mas como aulas expositivas de 50 minutos não funcionam no EAD, para cumprir a carga horária, os cursos são obrigados a mandar os alunos lerem, escreverem e resolverem problemas. Ora, essa segunda solução é mais próxima do 'ensino ativo', amplamente mais eficaz que o 'passivo', que consiste em ouvir preleções. Ou seja, pela natureza do processo de ensino, o EAD é obrigado a usar uma pedagogia superior.

 

MS - Quais as tendências que podem ser estabelecidas para a educação no mundo pós-pandêmico dos próximos anos?

CMC - Obviamente, espera-se mais uso de modalidades a distância. Podem ser cursos inteiros, como já ocorre na graduação e na pós-graduação lato sensu. Ou então, reduzindo a carga presencial de outros. O que é para ler e escrever, será feito em casa. Para os laboratórios e discussões, se preservará o espaço físico da faculdade.

A pandemia reforça a tendência recente de usar mais metodologias ativas na sala de aula. Quebrado o encanto da velha aula expositiva, tudo fica mais fácil. E ao se experimentar novas fórmulas, facilita-se o diálogo, em vez do tradicional monólogo.

Rompido o tabu das tecnologias digitais, entra em cena o LMS, como Blackboard e Moodle. E mais vídeos, prontos ou feitos pelo professor. Mais aulas invertidas – apoiadas no YouTube. Mais discussões e chats a distância. Mais celebridades acadêmicas falando para turmas imensas.

Haverá mais pragmatismo e menos superstição, diante das escolhas de como conduzir um curso e suas tecnologias.

E como consequência, haverá também mais poder para aqueles encarregados de lidar com as tecnologias.    

sábado, junho 13, 2020

Como proteger os idosos da pandemia? Problemas e Soluções para a População da Terceira Idade



Ano 14, Número 108, Junho de 2020

André Cezar Medici
Introdução

Na última terça-feira dia 2 de junho de 2020, participei de um debate organizado pela Dr. Maisa Kairalla, médica geriatra e coordenadora da iniciativa do Covid-19 da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), sobre os impáctos da Pandemia do Covid-19 na economia e na sociedade, com ênfase na população de terceira idade. Alem da Dr. Maisa, participaram do debate o Dr. Carlos Uehara, presidente da SBGG e o Dr. Alexandre Kalashi, ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). Quem quizer ouvir o debate (com duração de cerca de uma hora) poderá acessá-lo no link  https://youtu.be/LlbP4URjjLQ. Como desdobramento deste debate, gostaria de adicionar algumas considerações e informações sobre a fragilidade da população de terceira idade na pandemia do Covid-19 e discutir algumas medidas sobre como proteger esta população.

Desde as primeiras semanas da pandemia, quando começaram a surgir os dados de mortalidade em Wuhan (China), ficou claro que o Covid-19 atingiu mais duramente os idosos do que outras faixas etárias. Boa parte dos fatores explicativos se associam ao fato de que os idosos carregam um maior nível de co-morbidades do que outros grupos de idade, tais como doenças cardiovasculares, diabetes ou doenças respiratórias, as quais aumentam o risco de morte grave pela doença. O gráfico 1, publicado em um artigo recente do the Lancet mostra como os níveis de multi-morbidade tendem a aumentar com a idade.

1. Percentagem de Pacientes Segundo o Número de Doenças Crônicas por Grupos de Idade

Fonte: Barnett K, Mercer SW, Norbury M et al. (2012) Epidemiology of multimorbidity and implications for health care, research, and medical education: a cross-sectional study. Open Access Published: May 10, 2012 DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(12)60240-2

Adiciona-se a isso o fato que os idosos, em geral, tem maior fragilidade em seu sistema imunológico o que torna mais difícil o combate a níveis crescentes da infecção. O envelhecimento traz alterações progressivas no sistema imunológico tornando-o mais lento para responder a ameaças virais e propiciando o surgimento de disturbios auto-imunes de forma a reduzir sua capacidade em detectar e corrigir defeitos celulares e aumentado, inclusive, os riscos de câncer.

O envelhecimento, e o aumento da expectativa de vida dele decorrente, foi uma das maiores conquistas da humanidade, na medida em que resultou dos avanços da saúde pública e da medicina e trouxe maior bem estar e perspectivas de progresso para a população mundial. Mas o envelhecimento também amerita o cuidado e a transformação da percepção da sociedade sobre a fragilidade da terceira idade.

Todos devem estar preocupados com a saúde e o bem-estar dos idosos, especialmente porque, além de sofrerem maior incidência de co-morbidades por doenças crônicas e terem seus sistemas imunológicos mais debilitados, os idosos sofrem outras condições de risco associadas a fatores sociais. Nos países desenvolvidos, as casas de repouso de idosos tem se tornado epicentros de mortalidade para o Covid-19 e nos países em desenvolvimento, a vida em comunidades pobres e favelas onde cohabitam arranjos familiares multi-geracionais, com numerosos indivíduos vivendo em pequena área e poucos cômodos são os maiores fatores de risco para a população idosa.

Artigo recente publicado na News Letter Medical News Today[i] argumenta que nos Estados Unidos 35% das mortes por Covid-19 estão associadas a residentes e trabalhadores de instituições de longa permanência, embora somente 11% dos casos tenham ocorrido no interior destas instituições. Esta é uma realidade não apenas norte-americana, mas também em outras partes do mundo desenvolvido, como na Bélgica, no Canadá e na Espanha, onde números parciais relacionados às mortes por Covid-19 em casas de repouso chegam a totalizar 53%, 62% e 61% das fatalidades nestes países, respectivamente.

Mesmo no caso de idosos que não residem em instituições de longa permanência mas moram sozinhos nas grandes cidades, incluindo em países como o Brasil, há um enorme desafio para evitar que sejam expostos ao vírus porque, em muitos casos, dependem da ajuda de um membro da família ou amigo para fazer compras, auxiliá-los em tarefas domésticas, pagar contas e transporta-los para serviços de saúde ou para a casa de amigos, quando necessário. O Covid-19 traz o risco de que pessoas assintomáticas ou pré-sintomáticas (parentes, amigos, auxiliares) possam ser um vetor da endemia para as populações idosas.

No caso de idosos que vivem em familias multi-geracionais por não terem renda ou por utilizar seus rendimentos e propriedades para apoiar familiares, o risco vem, em primeira instância, dos familiares jovens que estudam ou adultos que trabalham, dado que estes tem contacto regular com motoristas de ônibus, estudantes, professores ou colegas de trabalho, frequentando lojas, estabelecimentos comerciais e outros logradouros públicos de alta densidade demográfica, podendo ser contaminados e apresentar sintomas leves ou serem assintomáticos.

Nas comunidades pobres ou favelas, mesmo que haja consciência, não há espaço físico para o isolamento e locais adequados para higiene, bem como equipamentos de proteção individual que possam separar os idosos daqueles que estudam ou trabalham e dessa forma manter algum tipo de distanciamento social com segurança no local onde habitam. Todos estes fatores estão na raíz do porquê o risco associado ao Covid-19 é maior na terceira idade, levando à sobre-mortalidade de idosos pela pandemia.

Alguns dados associados a sobre-mortalidade dos idosos para o Covid-19 nos Estados Unidos.

Ainda que tenha sido gerada uma grande quantidade de dados associados ao Covid-19 nos últimos seis meses, existe ainda muita fragilidade e incerteza de informações que impedem uma análise mais detalhada de fatores como a relação entre o Covid-19 e o envelhecimento. A precariedade dos registros de casos e mortalidade, com elevados níveis de sub-registro ou informações incompletas, não permitem uma total e precisa visualização sobre como a pandemia afeta as pessoas em distintos níveis de idade. As informações disponíveis permitem esboçar algumas hipóteses sobre o tema, como será visto a seguir.

Uma das formas de observar a mortalidade por Covid-19 relacionada a idade é compara-la com outras mortes não relacionadas ao Covid-19. De acordo com os dados registrados pelo Center for Diseases Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, entre 1º de fevereiro e 30 de maio de 2020 ocorreram 1,03 milhões de mortes no país, das quais 88,2 mil (8,6%) foram classificadas como mortes pelo Covid-19. Deste total de mortes por Covid-19, 80,7% ocorreram entre pessoas com 65 anos e mais de idade. No entanto, no conjunto de mortes não relacionadas ao Covid-19, 74,9% ocorreram também neste grupo de 65 anos e mais. Portanto, se pode dizer que há uma sobre-mortalidade entorno de 6% por Covid-19 neste grupo de idade quando comparado às demais mortes. 

O gráfico 2 mostra as diferenças da mortalidade proporcional[ii] por idade para Covid-19 e as demais causas de mortalidade nos Estados Unidos no período considerado.

                             Fonte: Elaboração do autor a partir de dados do CDC

Em linhas gerais, a mortalidade por idade do Covid-19 acaba reproduzindo um padrão etário muito próximo ao da mortalidade proporcional geral por idade. Mas como se pode obsevar, a mortalidade proporcional por outras causas (não Covid-19) nos Estados Unidos tem sido ligeiramente maior do que a mortalidade proporcional associada ao Covid-19 em todos os grupos de idade, com excessão do grupo de mais de 65 anos, onde a diferença entre as taxas de mortalidade proporcional começam a aumentar para o Covid-19, refletindo, dessa forma, o sobre-peso da mortalidade por Covid-19 nas idades mais avançadas.

Os dados mostram que o número de hospitalizações por Covid-19 por 100 mil habitantes também tem sido muito mais elevado para as populações de idade avançada, como foi observado no conjunto de casos acumulados dos Estados Unidos até 30 de maio de 2020, conforme demostra o gráfico 3. Verifica-se que as taxas de hospitalização para a população maior de 65 anos foram duas vezes maiores que as relativas a população de 50 a 64 anos de idade; quase seis vezes superiores as relativas à população entre 18 e 49 anos e mais de 100 vezes maiores que as da população entre 5 e 17 anos.

Fonte: Elaboração do autor a partir dos dados do CDC na página https://gis.cdc.gov/grasp/covidnet/COVID19_3.html.
As taxas de hospitalização se referem a população pertinente a cada grupo etário específico.

O gráfico 4, com dados do início da pandemia, mostra porcentagens elevadas de hospitalização e de uso de leitos de UTI nos Estados Unidos em relação ao número de casos, nas idades mais avançadas. Evidencia também uma elevada letalidade pela pandemia entre os idosos a qual é acima de 10% na população com mais de 75 anos de idade. No entanto, verifica-se uma letalidade em torno de 5% entre os grupos de 45 e 64 anos, passando para 8% na faixa de 66 a 74 anos de idade.


Na medida em que os idosos são naturalmente o maior grupo de risco para o Covid-19, observa-se, nas primeiras semanas da pandemia, o crescimento da participação dos idosos entre o total de pessoas hospitalizadas. Assim, de acordo com os dados do CDC (gráfico 5), entre 14 de março e 2 de maio de 2020, as pessoas de 65 anos e mais aumentaram de 40,6% para 48,1% do total de hospitalizações nos Estados Unidos. No entanto, na medida em que progride a pandemia ao longo do tempo, a comunicação com os idosos realizada por equipes médicas, associações geriátricas, bem como as evidências trazidas pela observação das taxas de mortalidade, fizeram com que essa população tomasse medidas de proteção para reduzir comportamentos de risco. Assim, entre 2 de maio e 30 de maio de 2020, as hospitalizações desse grupo se reduziram de 48,1% para 39,4% do total de hospitalizações.

                             Fonte: Elaboração do Autor a partir dos dados do CDC.

Analogamente, o grupo da população em idade ativa (18 a 49 anos) reduz inicialmente sua participação no total de hospitalizações, mas por pressões de trabalho e outros fatores, continua exposto ao risco em função de menor grau de adesão às regras de distanciamento social. Assim, acabam aumentando seus níveis de contaminação e necessidades de hospitalização. Essa população que respondia por 20.8% do total de internações hospitalares na segunda semana de abril, aumenta sua participação para 27,1% do total de hospitalizações na última semana de maio de 2020.

A associação entre mortalidade por Covid-19 e terceira idade é um reflexo, como haviamos mencionado antes, do peso das condições crônicas que são igualmente mais frequentes nas populações idosas. Mas deve-se mencionar que nas idades mais jovens também se observa uma certa associação entre  mortalidade por Covid-19 e a existências de condições crônicas. Uma análise realizada pelo CDC em vários hospitais dos Estados Unidos, mostrou que quase 90% dos pacientes hospitalizados por Covid-19 tem pelo menos uma condição crônica. Esta percentagem foi de 85% no grupo de 18 a 49 anos; 86% no grupo de 50 a 64 anos e chega a quase 95% no grupo de 65 anos e mais[iii]. Portanto, mas importante do que a idade para determinar a probabilidade de morte pela endemia é a existência de algum tipo de co-morbidade associada a doenças crônicas. A tabela 1 mostra, de acordo com os dados do CDC, as principais condições crônicas dos hospitalizados por Covid-19 nos Estados Unidos em três grupos de idade.

Tabela 1 – Percentual de Pacientes Hospitalizados por Covid-19 nos Estados Unidos por tipo de Condição Crônica segundo grupos idade
Tipo de Condição Crônica
Percentual de Pacientes com Doenças Crônicas Hospitalizados por Covid-19 por Grupos de Idade (%)
Total
18-49 anos
50-64 anos
+ de 65 anos
Hipertensão
49,7
17,5
47,4
72,6
Obesidade
48,3
59,0
49,0
41,0
Diabetes Mellitus
28,3
19,6
32,1
31,3
Doença Pulmonar Crônica
34,6
36,4
28,3
38,7
Doença Cardiovascular
27,8
4,7
19,6
50,8
Doença Neurológica
14,0
9,5
7,3
23,8
Doença Renal Crônica
13,1
7,3
3,8
25,4
Pelo Menos uma Condição Crônica
89,3
85,4
86,4
94,4

Condições crônicas como hipertensão, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, neurológicas e renais crônicas estão mais presentes como co-morbidades nas hospitalizações por Covid-19 nos grupos com mais de 65 anos, mas outras condições crônicas, como obesidade e doenças pulmonares crônicas, também estão presentes em proporções maiores do que nos idosos nos grupos de idade mais jovem.

Algumas informações sobre a sobre-mortalidade por Covid-19 entre os idosos no Brasil


Os dados do Covid-19 no Brasil por grupos de idade tem sido reportados com alguns problemas, mas já permitem traçar algum paralelo com o que acontece nos Estados Unidos e outros países. É sempre bom lembrar, que a estrutura etária no Brasil ainda é mais jovem do que a norte-americana e a dos países europeus. A proporção de pessoas com 60 anos e mais no Brasil em 2020 é estimada em 13,6%, comparada com 22,4% nos Estados Unidos, 25,8% na Espanha, 25,9% na Suécia e 29,3% na Itália. Adiciona-se o fato de que a expectativa de vida ao nascer no Brasil, estimada em 76 anos em 2020, é menor que a destes países estimadas em 79, 84, 83 e 84 anos, respectivamente. Nesse sentido, é de se esperar que a distribuição da mortalidade por Covid-19 por grupos de idade no Brasil, tenha um menor peso das idades avançadas do que nos demais países mencionados.

                              Fonte: Elaboração do Autor a Partir dos Dados do DATASUS

Os dados do gráfico 6 não permitem reproduzir a mesma lógica da informação apresentada no gráfico 2 para os Estados Unidos, dado que não há informação sobre mortalidade proporcional por idade em geral no mesmo período onde estão ocorrendo as mortes por Covid-19. Nesse sentido não é possível deduzir das mortes em geral as mortes relacionadas para o Covid-19 para comparar “mortes por outras causas” com “mortes pelo Covid-19” por idade. Dessa forma, optou-se por comparar a estrutura de mortalidade proporcional da população total por idade em 2017 com a estrutura de mortalidade proporcional para o Covid-19 relativa ao total das mortes acumuladas até 8 de maio de 2020.

Os resultados mostram que, como ocorre nos Estados Unidos, existe uma sobre-mortalidade por Covid-19 nas idade de 60 anos e mais - 69,2% das mortes totais por Covid-19 - quando comparadas com a mortalidade em geral, onde esta faixa etária responde por 66.9% das mortes do país. Há que se considerar, no entanto que, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos, a sobre-mortalidade por Covid-19 começa na faixa de 30 anos e mais, enquanto que nos Estados Unidos esta só começa a partir dos 60 anos de idade. A sobre-mortalidade precoce por Covid-19 no Brasil, além dos diferenciais de estrutura etária da população, pode estar associada ao fato de que o país tem uma carga de doença por enfermidades crônicas precoce em relação ao Estados Unidos, fazendo com que os risco associados as co-morbidades do Covid-19, analisados anteriormente, se iniciem em idades mais jovens.

Fonte: Elaborado pelo Autor a partir de dados dos Ministérios de Saúde dos Países[iv]

O gráfico 7 mostra a distribuição da mortalidade proporcional por idade do Covid-19 no Brasil e em três nações européias com estrutura etária mais envelhecida (Itália, Espanha e Suécia) na primeira quinzena de maio de 2020. Fica evidente que, uma vez que as mortes associadas ao Covid-19 no Brasil ocorrem mais cedo do que nos demais países, há um maior risco das populações mais jovens estarem espostas à pandemia. Além da composição etária da população ser mais jovem, o dado poderia estar refletindo, como já foi mencionado anteriormente, a incidência precoce de condições crônicas entre a população brasileira[v], além de eventuais falhas no sistema de atenção à saúde tanto do lado preventivo (ausência de testes e esforços insuficientes para garantir a adesão da população ao distanciamento social, especialmente dos que tem menos de 60 anos) e curativo (baixos níveis de acesso da população a hospitais, leitos de UTI e ventiladores mecânicos) impossibilitando o tratamento adequado daqueles que teriam mais chance de cura pelo sistema de saúde se adequadamente medicados.

O Ministério da Saúde não coleta ou divulga informações sobre a estrutura etária das hospitalizações por Covid-19, embora alguns Estados apresentem esta informação. Muitos estudos tem demonstrado que a idade média das hospitalizações por Covid-19 é relativamente baixa no Brasil, refletindo parcialmente a estrutura etária[vi] da população e a estrutura da mortalidade por Covid-19 no país a qual é mais jovem do que nas economias avançadas. Mas por outro lado, seria importante verificar se esta informação poderia estar associada, mesmo que parcialmente, a uma relativa negligência no atendimento de casos de Covid-19 para populações com idade mais avançada, especialmente nas localidades mais pobres, as quais, mesmo sendo desproporcionalmente afetadas pela pandemia, enfrentam maiores dificuldades socio-econômicas e institucionais para ter acesso ao sistema de saúde.   

Como foi mencionado, abrigos e asilos para a terceira idade são uma ameaça para a contaminação de idosos pelo Covid-19 nos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos existem mais de 15,6 mil instituições asilares para a terceira idade e em alguns Estados elas foram responsáveis por mais de 50% das mortes por Covid-19 até junho de 2020[vii]. Mas no Brasil, a proporção de idosos que vivem em instituições asilares é relativamente pequena, quando comparada com as economias avançadas. Um relatório preparado pela SBGG em abril de 2020, para subsidiar a Comissão de Defesa dos Direitos do Idoso da Câmara dos Deputados no enfrentamento da pandemia, menciona que há cerca de 78 mil idosos em instituições credenciadas no Sistema Único de Assistência Social brasileiro[viii], comparado com os 2,5 milhões de norte-americanos que vivem em instituições similares (nursing homes and assisted living facilities) e que representam cerca de 6,5% da população norte-americana com mais de 65 anos de idade[ix].

Os maiores riscos sociais para a população de terceira idade no Brasil estão associados aos que vivem em familias multi-geracionais. O número de familiares que se dedicavam a cuidados de idosos com 60 anos ou mais no Brasil aumentou de de 3,7 milhões em 2016 para 5,1 milhões em 2019, de acordo com os dados do IBGE[x]. Boa parte destes familiares se dedicavam, em 2019, a monitorar os idosos ou fazer companhia dentro do domicílio (83,4%), auxiliar nos cuidados pessoais (74,1%) e transportar ou acompanhar para consultas médicas, exames, parques e praças, atividades sociais, culturais, esportivas ou religiosas (61,1%). Esta situação é ainda mais precária para os idosos que vivem em favelas e comunidades, onde a acessibilidade é mais difícil, os domicílios tem alta densidade de moradores, grande proximidade de outros domicílios e falta de condições adequadas de saneamento, coleta de lixo e desinfecção, criando um ambiente de alto risco para idosos. Não se sabe, especialmente em favelas ou comunidades, se os familiares tem tomado as medidas necessárias para a proteção dos idosos contra o Covid-19. Ações públicas ou comunitárias para este fim são urgentes.

Como proteger os idosos da pandemia?

O maior risco de contaminação dos idosos ao Covid-19, como visto neste artigo, não se associa somente ao fato de serem idosos, mas principalmente: (a) à existência de co-morbidades que são mais frequentes nas pessoas de terceira idade e, (b) à perda progressiva de imunidade na medida em que as populações envelhecem. Nesta perspectiva, muitos recomendam que, em primeira instância, os idosos continuem com o tratamento e a medicação para que se mantenham estáveis nas condições crônicas que apresentam e que façam esforços para o fortalecimento de seu sistema imunológico.  

Além da manutenção dos tratamentos para as doenças crônicas que apresentam, os idosos devem realizar exercícios físicos que combatem condições crônicas e ajudam a fortalecer o sistema imunológico, comam alimentos saudáveis, não fumem (dado que o tabaco enfraquece o sistema imunológico) e limitem a ingestão de alcool.  Tomar as vacinas contra gripe, pneumonia e outras é essencial não somente porque contribuem com a resistência imunológica mas também porque ajudam na proteção do sistema respiratório que é o primeiro a ser atacado pela Covid-19.

Ainda que asilos para idosos não sejam muito frequentes no Brasil, eles estão presentes nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro[xi] e a maioria trabalha com condições muito precárias para prestar atenção individualizada aos idosos. De acordo com instituições internacionais, a orientação para a proteção dos idosos contra o Covid-19 em instituições asilares poderia estar baseada nas seguintes medidas:

(a) a elaboração de planos de prevenção e vigilância adaptados às características de cada estabelecimento para evitar contaminação e surtos da doença;

(b) a realização de testes periódicos dos idosos residentes e funcionários para identificar possíveis casos positivos e planos de ação para dar resposta aos casos de contaminação;

(c) a verificação sistemática de temperatura e dos sintomas da Covid-19 entre funcionários e o afastamento daqueles com sintomas respiratórios ou febre;

(d) a suspensão das visitas de parentes e amigos por tempo indeterminado;

(e) a realização de um plano de ação para o isolamento de pacientes contaminados e para o tratamento de casos graves, com acesso claro a hospitais, leitos de internação e equipamentos.

(f) a delimitação de áreas para isolamento respiratório dos que apresentarem sintomas da doença e a preferência pelo uso de áreas de ventilação natural nos ambientes onde residem e circulam os idosos, evitando a circulação forçada de ar condicionado;

(g) a restrição de atividades em grupo e circulação em áreas comuns.

Mas a proteção da maioria dos idosos, especialmente dos que vivem em domicílios multi-geracionais e áreas como favelas e comunidades, exige ações mais complexas, entre elas:

(a) Garantir que todos os idosos em risco de contaminação do COVID-19 - especialmente aqueles aqueles que vivem sozinhos ou em áreas deprimidas - sejam identificados nas áreas de atenção primária (sistemas de saúde de familia) subjacentes, com protocolos claros para remoção e tratamento em casos graves da doença;

(b) Priorrizar os testes de Covid-19 para populações vulneráveis em domicilios multi-geracionais e em áreas de transmissão comunitária sustentada;

(c) Garantir a continuidade de serviços de atendimento adequados para pessoas idosas, incluindo tratamento e medicação para as doenças crônicas pre-existentes e planos de ação físico-nutricionais e vacinação nos serviços de saúde, cuidados paliativos e geriátricos;

(d) Garantir a identificação e informação detalhada dos casos ou mortes por COVID-19 ocorridos em instalações ou em domicílios de modo a melhorar o monitoramento da situação e identificação de causas e fatores de risco associados a ocorrência dos óbitos;

(e) Fortalecer os serviços para prevenir e proteger pessoas idosas, particularmente mulheres idosas, de qualquer forma de violência e abuso, como violência doméstica e negligência;

(f) Garantir que as políticas de visitantes em hospitais e instalações de cuidados respeitem as regras de segurança pandêmica mas mantenham informadas as famílias e a conexão com seus respectivos idosos.

As experiências no Brasil e no mundo tem reportado dificuldades em manter os níveis adequados de segurança pandêmica em áreas urbanas deprimidas e de alta densidade populacional, como favelas e comunidades. No entanto, muitas iniciativas de organizações sociais e comunitárias tem inovado nesta perspectiva. O aumento de plataformas digitais por celulares para informar e conscientizar a população sobre comportamentos para evitar e mitigar a contaminação pelo Covid-19 nas favelas e as ações coletivas disponibilizadas pelo governo e sociedade civil para as comunidades, de forma a promover o distanciamento social e medidas coletivas de proteção parecem ser alternativas efetivas que poderão ser replicadas em outras áreas similares, minimizando os eventuais problemas de contágio subjacentes a estas áreas.

NOTAS



[i] Saudoiu, Ana, The impact of the COVID-19 pandemic on older adults in Medical News Today, May 19, 2020. Link https://www.medicalnewstoday.com/articles/the-impact-of-the-covid-19-pandemic-on-older-adults#Old-age-and-preexisting-health-conditions.

[ii]Define-se como mortalidade proporcional por idade a distribuição percentual dos óbitos por faixa etária. Ela mede a participação dos óbitos em cada faixa etária em relação ao total de óbitos.  

[iii] Ver CDC, “Hospitalization Rates and Characteristics of Patients Hospitalized with Laboratory-Confirmed Coronavirus Disease 2019 — COVID-NET, 14 States, March 1–30, 2020”  in CDC, Morbidity and Mortality Weekly Report, Link https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6915e3.htm

[iv] Dados coletados dos Ministérios de Saúde dos Países pela Revista Eletrônica Poder 360. (*) As datas relativas aos dados de mortes acumulados por país são 8 de maio (Brasil), 12 de maio (Itália e Suécia) e 13 de maio (Espanha). Para uma visão completa das informações, ver o link: https://www.poder360.com.br/coronavirus/conheca-a-faixa-etaria-dos-mortos-por-covid-19-no-brasil-e-em-mais-5-paises/

[v] Segundo o Ministério da Saúde, nos dados acumulados até 8 de maio, as condições mais prevalentes entre os óbitos pela Covid-19 no Brasil onde a informação sobre co-morbidade havia sido coletada foram as doenças cardiovasculares (39%), diabetes mellitos (30%), doenças pulmonares (9%), doença renal crônica (6%) e doença neurológica (6%).

[vi] Ver o artigo Epidemiological and clinical characteristics of the early phase of the COVID-19 epidemic in Brazil, de Julio Croda, Ester C. Sabino, Nuno Rodrigues Faria e outros. Link https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.25.20077396v1.full.pdf

[vii] Ver o informe especial da AARP Bulletin de Junho de 2020, intitulado “Remaining the Nursing Home: After Covid-19 here´s what experts say may change”.

[ix] Informação da publicação Providing Healthy and Safe Foods as We Age: Workshop Summary, Institute of Medicine (US) Food Forum, Washington (DC): National Academies Press (US); 2010. ISBN-13: 978-0-309-15883-1ISBN-10: 0-309-15883-4

[x] Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilios (PNAD) 2016 e da PNAD Contínua 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Link: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/27878-com-envelhecimento-cresce-numero-de-familiares-que-cuidam-de-idosos-no-pais.

[xi] De acordo com a publicação citada acima na nota de fim de página número viii, um estudo do Ministério Público do Rio de Janeiro realizado no Rio de Janeiro apontou que, de 60 asilos inspecionados, apenas cinco tinham condições de prestar atendimento individualizado aos idosos.

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